O título pode parecer meio nonsense, mas vai ver que tem sentido...

Eu achava que ser negro no Brasil era o mesmo que ser negro fora dele, mas agora acho que não. Pelo menos não sempre. Esse é um tema que há muito venho criando esboços de textos e vídeos pra falar, mas sempre deixo de lado. Não é uma questão que me afete tanto no momento, não porque não exista ou não seja colocada a minha frente de vez em quando, mas porque às vezes eu prefiro fazer vista grossa e deixar passar. Isso porque ser negro para mim é o mesmo que ser branco, pardo, amarelo, “nude” ou quantos nomes de cores inventarem para descrever as pessoas. É só uma pele. Quem consegue passar essa camada bem fininha vai ver que o resto, por dentro, é tudo igual. Pelo menos é assim que eu explicaria para uma criança. É assim que eu explico pra mim mesma.

Mas eu decidi escrever não por mim, mas pelos outros. Mais para quem tem esse receio e já me perguntou ou pra quem quis, mas talvez não tenha chegado a tanto: como é ser negro fora do Brasil? A minha resposta é: depende. Você pode se indignar com cada absurdo que vai ouvir por aí, cada olhar que vai receber ou simplesmente passar batido, continuar seu dia e reparar apenas nas pessoas que te olham como olham para qualquer outro. Eu escolho a segunda opção e explico o porquê.

Eu acho a minha vida, o meu tempo e a minha atenção preciosos demais pra gastar com cada pessoa que encontro que parece estar vendo uma pessoa negra pela primeira vez – na vida! Especialmente as que nunca viram um “meio negro”. A expressão já explico. É comum as pessoas, pelo menos na Europa, se depararem com um brasileiro que seja “branco demais” para o que eles conhecem como sendo negro, ou “preto”, como chamam. Então surge o: “você não é negro, é meio negro”.  Até então seria apenas engraçado, o tal do “meio negro”. O problema é quando a explicação seguinte aparece: “você é tipo meio negra. Sim, porque quero dizer que tem uns piores”. Merece até outro parágrafo.

Eu já me sinto parte da série “Todo mundo odeia o Chris” quando encontro alguém negro na universidade, porque realmente há menos pessoas negras do que vejo no Brasil, até então é compreensível que as pessoas olhem por não estarem tão acostumadas. Mas me dizer que tem “piores”? De duas, uma: ou a pessoa faltou na aula de adjetivos e esqueceu o peso e significado dessa palavra (nesse caso, peca por ser inocente demais) ou ela é simplesmente lunática. De todos os episódios, esse foi o único que me chocou e sinceramente não pela pessoa ter sua opinião, mas por achar natural abordar uma pessoa negra pra falar sobre a cor dela como se ela não estivesse ali ou fosse uma parede, “meio negra”, para a qual ela pode falar o que vier à mente. E eu lá saio falando: “você não é muito branco, é meio encardido, sabia”?

Para tenta suavizar a conversa depois dos primeiros comentários, é comum ouvir algo como: “você tem a alma branca, pois é muito educada”, ou ainda: “você tira a sobrancelha, se arruma, até tem tem os traços um pouco europeus. É bonita”. De todos os comentários ditos aqui ou que nem menciono, eu ri. Ri hoje, vou rir amanhã e pra sempre vou rir. Também tenho um pouco de dó, porque foi indo morar do outro lado do mundo, no velho continente, ao qual os livros de história atribuem tantas conquistas e descobrimentos, que vi que muita gente aqui, no Brasil ou em qualquer lugar, na verdade, não descobriu nada. E uns nem sei se vão.

Sendo assim, volto ao pensamento inicial de que ser negro fora do Brasil é, na essência, a mesma coisa do que ser negro em qualquer lugar. Mais incômodos e preconceitos em alguns lugares, menos em outros, mas pra já é uma questão de escolher como lidar com as situações. E não digo isso para menosprezar o envolvimento em questões igualitárias e raciais, pois aí sim é preciso lembrar quando não se é tratado de forma igual. Mas no dia a dia, não, eu não sou uma pessoa negra, “meio negra” ou branca. Sou uma pessoa. Ponto.

E sobre o “nude”, que cito logo no início é simples, um dia me perguntaram: “existe nude da sua cor?”. Como disse anteriormente, é claro que ri, como sempre. A resposta foi: acho que sim, se não eu invento um”. E o dia continuou, tal como minha vida.

 

Assista também ao vídeo “E se os negros dissessem o mesmo que ouvem dos brancos”

 

Este conteúdo é de responsabilidade do autor da coluna Coisas de Nataly, que atualmente vive na Europa.

 

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Sobre o Autor

Nataly Lima

Natural de São Paulo, mas hoje tem a Europa como sua base. É mestre em jornalismo, mas não dá aula em faculdade. No momento só quer compartilhar o que vê pelo mundo.

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