Minha transição capilar fora do Brasil

Então, finalmente chegou o dia em que completei minha transição capilar.

Antes de sair do Brasil nunca havia pensado sequer em tentar deixar meu cabelo crescer sem submetê-lo a qualquer tipo de tratamento químico. “Imagina, que horror”, pensava eu. Cabelos lisos ou com ondas controladas eram sinônimo de beleza e confiança para mim e não só.

Na área do jornalismo muitos ainda dizem ser o ideal para passar um ar de profissionalismo. Os cachos seriam motivo de distração.

Hoje vejo o quão triste e problemático é isso tudo, mas só comecei a me preocupar em ter que mudar algo quando pensei: “e fora do Brasil? Como vou fazer com meu cabelo”?

Toda uma história

Na minha infância, lembro de brincar com o cabelo de uma tia-avó, que havia puxado o lado mais índio da família e tinha longos cabelos lisos e pretos. Lembro também de recortar fotografias que gostava das revistas, dentre elas, as de modelos e outras mulheres famosas. Algumas negras, para que eu pudesse me inspirar no estilo delas. Sempre, todas de cabelos lisos ou ondas feitas com babyliss.

Em casa também não tinha espaço para o meu cabelo natural. Sempre brincaram que passei várias vezes na fila do cabelo (realmente tenho muito). Passava horas sentada até que minha mãe conseguisse arrumar à base de muito creme, elásticos e cachos feitos com os dedos.

Depois que cresci e comecei a me cuidar sozinha, elegia um único penteado para o ano todo: sempre presos. Teve o ano do rabo de cavalo, o do pico de bato, o da trança embutida. Nos dias de festa era o meio preso meio solto. Nunca, absolutamente nunca todo solto.

Em 2007 aderi à moda das escovas progressivas. Juntando esta nova química ao relaxamento que já fazia, finalmente consegui o que sempre quis: meu cabelo estava totalmente alisado. Não era nada prático, afinal ainda precisava escová-los e pranchá-los todas as vezes que lavava. Chuva, piscina, mar? Não se pudesse evitar.

Naquela época ainda não havia muitos exemplos na televisão que me inspirassem a fazer o contrário e o YouTube ainda nem era conhecido. Me lembro muito bem da Taís Araújo com os cabelos alisados e pretos para a novela “A Favorita”, quando eu também usava os cabelos de forma parecida. Lembro que estava no cursinho e recebia muitas comparações com ela. Ficava feliz.

Lembro também de ouvir comentários de colegas mais próximos naquela época de mudança: “nossa, parece outra pessoa”, “agora sim”, “ficou muito melhor”. Encontrei ali a minha segurança e autoconfiança que faltavam.

Nunca mais prendi os cabelos e mantive daquela forma por mais oito anos. Quem me conheceu naquela fase sequer sabia que meu cabelo, na verdade, era cheio de curvas. Aliás, nem eu sabia mais.

 Início da faculdade (São Paulo, 2009)

 Do outro lado do oceano

Em 2012 minhas preocupações com cabelo voltaram. Antes de ir fazer o intercâmbio retoquei a raiz, comprei uma chapinha e chegando em Portugal um secador. Não importa o quão úmido fosse o clima da cidade em que estava ou o quanto chovesse: sempre dava um jeito de arrumar do jeito que queria, senão, não saia em nenhuma foto.

Depois de retornar para o Brasil por mais dez meses, resolvi voltar para Portugal para fazer o mestrado. Então, não seriam apenas seis meses ou seis dedos de raiz. O curso duraria dois anos. E agora?

Mal cheguei em Portugal e meu cabelo entrou em choque com a água, que é cheia de calcário. Meu cabelo quebrou bastante. Nem parecia que tinha alisado antes de sair do Brasil. Fui atrás de lojas que tivessem produtos para o meu cabelo. Na época não achei nada além de uma loja de produtos africanos. Comprei um alisante e apliquei. Não deu certo.

Depois de alguns meses vi uma colega brasileira na aula e notei que ela tinha feito algo diferente no cabelo. Fui perguntar o que era e se tratava de um tratamento chamado Lise Gloss. Nunca tinha ouvido falar, mas o resultado era realmente incrível.

Passei a fazer o tratamento com a mesma cabeleireira, que é brasileira, e mantive o cabelo agora ainda mais alisado e maleável por mais dois anos.

Resolvi mudar

Comecei a me relacionar com uma pessoa que, assim que descobriu que meu cabelo não era naturalmente liso, quis colocar minha cabeça na pia no mesmo momento: “eu quero ver, me mostra seus cachos”! Ele não entendia que não adiantava só lavar, pois era quimicamente tratado. E lembro de retrucar: “não meu filho, se lavar vai ficar liso na mesma ou meio sem forma. E não se anime que meu cabelo não é ondulado tipo Gisele Bündchen não”.

Eu não conseguia aceitar que alguém achasse o meu cabelo natural bonito porque eu mesma não achava. Ou toda a minha história não me deixava pensar de outra forma.

Com o tempo, aquela curiosidade foi ganhando espaço dentro de mim. Entre um tratamento e outro a raiz ia crescendo e eu ia brincando com as ondas que surgiam, dessa vez bem mais maleáveis que antigamente. Já havia muita gente compartilhando dicas e histórias sobre voltar a usar o cabelo natural, pelas mais diversas razões.

Mas foi apenas quando comecei a pensar em viajar mais para outros países que tomei a decisão: quero continuar escovando meu cabelo, mas não quero mais alisar porque a manutenção é muito difícil. Era maio de 2015.

Dois (intermináveis) anos de transição

Não foi nada fácil. Um cabelo extremamente cacheado em cima e totalmente alisado embaixo. Eu me sentia o “Edward Mãos de Tesoura” ou o vocalista do Chiclete com Banana (ainda me sinto às vezes).

A pior fase, sem dúvida, foi quando passei uma temporada na Croácia. Sem saber que lá não havia creme de cabelo, fui sem os meus para evitar levar mais peso. Foram pouco mais de cinco longos meses sem poder comprar algo que se torna ainda mais importante quando usamos o cabelo de forma cacheada. Também não conseguia achar nada apropriado para proteger do calor do secador, quando queria deixá-lo liso.

Foi a fase mais difícil e minha autoconfiança ficou lá embaixo neste aspecto. Minha sorte, pensava eu, é que ali quase ninguém me conhecia.

Na época não queria fazer vídeos, pois não queria aparecer daquela forma. Também não queria ser fotografada em passeio ou viagem alguma. Não gostava da forma que me via nas imagens. Me lembrava aquela Nataly de quatorze anos à espera de um cabelo que considerava lindo e que achava que só com aquilo poderia ser o que eu quisesse ser.

Meu namorado, na época, não entendia minha tristeza com a forma do meu cabelo. Me dizia o quão privilegiada eu era de ter um cabelo desses, que todos achavam lindo, mas eu mesma repelia todos aqueles comentários. Voltei a usar os cabelos presos, esticados na frente e apenas olhava as fotografias antigas. Sentia saudades.

Uma das poucas fotos que gosto durante a transição (Eslovênia, 2016)

O tempo passou, voltei a Portugal e para a cabeleireira que entende do meu cabelo. Continuei tratando, mas sem alisar. “Já fui tão longe, não vou desistir agora”, foi o que pensei.

Essa semana cheguei em casa depois de quase vinte dias viajando e cansada de ver as últimas pontas alisadas contrastando com as ondas que já começam a pesar na cabeça, peguei uma tesoura e cortei. Não fui a salão nenhum, pois sei que essa será a minha realidade em muitos países. Muitos profissionais não estão acostumados então não entendem os cuidados que este tipo de cabelo demanda.

Eu ainda não consegui sair de casa com ele assim, solto, e ainda me importo com o que as pessoas vão falar. Mas por vezes fico sentada em frente ao espelho me olhando. Descobrindo esse novo eu. Pensando em como será daqui a um ano ou mais.

Logo em seguida sempre me imagino numa praia. Cabelos ao vento e eu correndo para o mar, sem medo de como vai ser depois que me molhar. Mas de tudo, o que me faz continuar esse processo é que eu imagino minha filha, que não sei se terei, mas a imagino. De cabelos também cacheados, mas ela, diferente de mim, sem medo ou vergonha alguma daquilo que ela é.

Espero que este depoimento toque muitas de vocês, leitoras, que se veem na mesma situação que eu. Pode parecer uma coisa sem importância alguma para os outros, mas sei perfeitamente que o cabelo molda não só o rosto, mas às vezes também molda muitas das nossas vontades e planos.

Eu continuo entre escovas e cachos porque gosto de mudar e às vezes um jeito é mais prático que o outro. Mas já não me sinto mais presa a retoques de raízes e nem à previsão do clima.

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna O Mundo de Nataly. Siga também o Instagram da Nataly.

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