Brunno Cocco conta para o Já Fez as Malas? o lado o bom (e não tão bom) de viver nas nuvens


O que faz quando está num voo pelo qual não é o encarregado: “durmo ou assisto a algum filme”, afirma. Mas não é esse o maior prazer do brasileiro Brunno Cocco, que aos 5 anos já gostava de aviões e não tirava da cabeça que queria ser piloto. E não desistiu até chegar lá.

Aos 13, com a ajuda da internet e de revistas especializadas, já buscava saber mais sobre o mundo da aviação. No final do ensino médio passou a se dedicar mais aos estudos, ainda de forma autodidata. Partindo para o ensino superior, cursou Aviação Civil de segunda a sexta na Anhembi Morumbi e, ao mesmo tempo, se matriculou no curso teórico de Piloto Privado no Aeroclube de São Paulo, onde teve aula aos sábados e domingos para alcançar a primeira categoria de piloto.

A fase de estudos não acabou por aí, e aliás, no que Brunno afirma ter sido um “misto de extrema alegria e preocupação”, foi aprovado no Curso de Especialização em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada do ITA, Instituto Tecnológio de Aeronáutica. O sonho já se tornava mais real, mas o esforço mais árduo também. Das 5 às 11 da manhã, trabalhava. Fazia pausa para o almoço e às 14h saía em direção ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com passagem marcada numa van com destino a São José dos Campos. Saía do ITA às 22h, chegava em casa por volta da meia noite. E no outro dia repetia-se o mesmo.

No meio de tanto esforço, Brunno Cocco se lembra dos momentos mais marcantes do início da carreira de piloto. A primeira vez no simulador, descreve como um momento de “extrema satisfação”. O primeiro voo real foi de São Paulo – Ilhéus – Salvador. Descreve como um momento de muita felicidade, mas também de experimentar coisas que no simulador ainda não tinha vivenciado, como diferentes alturas e velocidades.

“a vida dos pilotos e comissários não é esse glamour que muitos ainda acreditam. Às vezes chegamos no hotel e temos exatamente 12h de descanso antes de assumir um novo voo”

Uma vez comprovada a proficiência em inglês, idioma que ele ressalva que é muito importante, pois a maioria dos manuais dos aviões e muitos cursos não são em português, surgiram oportunidades para cruzar fronteiras. Quando perguntado como é a rotina quando faz rotas internacionais, Brunno, que atualmente pilota com mais frequência em rotas na América do Sul e, por vezes, Caribe e Estados Unidos, afirma que quando tem a oportunidade de ficar mais tempo no destino aproveita para passear. “Busco na internet o que tem na cidade e tento conhecer”. No entanto, ele faz uma ressalva e afirma que esse pode ser também o lado mais difícil da profissão: “a vida dos pilotos e comissários não é esse glamour que muitos ainda acreditam. Às vezes chegamos no hotel e temos exatamente 12h de descanso antes de assumir um novo voo. Não temos tempo e muitas vezes nem vontade de sair para passear”.

Aproveitando para falar do lado difícil de ser piloto, quando perguntado sobre o que sente quando recebe a notícia de um acidente aéreo, Brunno é categórico ao afirmar que não é medo, pois o “risco faz parte da profissão”, mas sim comoção. “São pessoas como eu, independente de serem pilotos, passageiros ou pessoas em solo, são pessoas”. Posteriormente ele afirma que há um empenho em minimizar os riscos revisando os sistemas dos aviões, tendo as aulas teóricas, trocando experiências de voos com outros pilotos e até mesmo simulando cenários como fogo nos motores, falhas elétricas, despressurização e outros.

Mas cenários muito agradáveis são, felizmente, mais comuns na aviação e não é diferente com Brunno. O piloto afirma que das vistas mais bonitas que já teve enquanto estava pilotando foi ao sobrevoar a Cordilheira dos Andes com o nascer ou pôr do sol. “Principalmente nos meses com mais neve”, complementa. O Caribe também entra na lista “pela cor da água”, mas no Brasil é São Paulo que fica no topo de sua lista. Brunno afirma que gosta de ver “como a metrópole é enorme”. Fazer o que ele chama de aproximações no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, também seria “bonito de se ver”.

Apesar de ter escolhido uma carreira que muito sonhou e trabalha todos os dias para se manter, o piloto ainda tem sonhos na profissão. Pousar no aeroporto de Paro, em Butão, segundo ele “extremamente montanhoso e de aproximação trabalhosa”, está na sua lista de realizações.

Sobre o Autor

Nataly Lima

Natural de São Paulo, hoje tem a Europa como a sua base. É editora-chefe do "Já Fez as Malas?" e apaixonada por conhecer novas culturas, comer, viajar e contar histórias sobre esses e outros assuntos.

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