Já faz mais de quatro anos que a palavra casa mudou de significado para mim. Não digo no sentido de propriedade física, mas de lar. Até aquele ponto da minha vida, minha casa era o apartamento de cerca de 56 m2 na zona oeste de São Paulo. Nunca pensei que tivesse outra. Mas uma temporada de seis meses em outro país me fez ficar confusa quanto a essa definição.

Foi tanta mudança que essa viagem a longo prazo me trouxe que depois mudei com as poucas coisas que tinha para esse outro lugar. De alguma forma, naquele momento e do outro lado do mundo, me senti estranhamente em casa.

Por vezes parecia até crime, um pecado dizer que me sentia bem vivendo em outro lugar que não fosse onde nasci. Onde nem tinha raiz. Não é que eu não gostasse da minha cidade natal ou do meu país, e muito menos que não me importasse em estar perto da minha família e dos amigos, mas eu simplesmente sentia necessidade de estar em outro lugar. As tantas novas descobertas que realizava a cada dia me faziam me sentir tão viva, que só queria mais daquilo.

Há cidades que a gente simplesmente chama de lar sem nem mesmo conhecer. Só sabemos que fomos feitos para estar ali e não aqui. Mesmo que de forma temporária. Essa sensação foi transferida de São Paulo para o Porto, do Porto para Londres, quando pude visitar no último mês. Foram só cinco dias, mas toda uma vida sonhando com aquele lugar. Aquela sensação de: eu acho que um dia ainda vou acabar morando aqui me impregnou em cada momento. O mesmo sinto por Nova Iorque. Com o detalhe de que nunca lá os pés coloquei.

Neste mês mesmo passei a chamar de casa a Croácia. Destino improvável, que confesso que sabia muito pouco ou quase nada há alguns anos. País que entrou na União Europeia em 2013, cuja bandeira, sem ofensas, me lembra um pouco uma toalha de piquenique, e cujos jogadores da seleção nacional de futebol ficaram pelados na Copa do Mundo realizada no Brasil. Era tudo que eu sabia.

No entanto, enquanto escrevo este texto de uma cama que conheci há pouco, olhando para uma mesa recém apresentada a mim, aqui é minha casa. Já dizia uma música que tocava por aí nas rádios: “home is wherever I’m with you”, em tradução literal, “lar é onde eu estiver com você”. Nunca compartilhei aqui, mas os mais próximos sabem que por cerca de dois anos vivi em um relacionamento com muitos momentos de distância e pontes aéreas e que mudar essa situação era um dos meus grandes desejos para esse ano.

Nesse meio tempo meu coração ficou meio que sem casa. Já não era bem em Portugal, nem no Brasil. Casa seria qualquer lugar comum, sem avião e espera no meio. A procura foi grande. O lugar perfeito para a vida toda? Bem, não achamos. Mas encontramos uma ótima saída para o momento, para que eu também pudesse conhecer mais a cultura dele, que é croata, da língua (extremamente difícil se comparada a outras que estamos mais habituados) e claro, da família e amigos dele.

Sei que pra já é uma casa temporária. Mas é completa e plena. Até quando tiver que ser. Até quando for.

Mas tem gente que não gosta de quem muda muito de país. De casa. É como se não pudéssemos ir experimentando. “Coisa de quem não sabe o que quer”.

Talvez seja uma sabedoria que eu desconheça, pois a minha não muita experiência de vida me diz que estamos nesse mundo só de passagem mesmo. Que a vida é muito curta para não irmos conhecer pessoalmente os lugares com os quais sonhamos, mesmo que esse sonho tenha surgido ontem e por diversas razões. Para deixar de ir ver com os próprios olhos as paisagens do cinema. Para não sentir os cheiros e sabores que os livros descrevem. Para não se arriscar a viver em meio ao desconhecido, se o que mais importa pra você no momento estiver ali.

A vida é o que senão uma grande viagem com passagem apenas de ida e sem volta? Imagina morrer amanhã sabendo que deixou pra depois; para quando casasse, para quando tivesse companhia, para quando estivesse sobrando dinheiro, e por fim não deu tempo. Imagina descobrir que você poderia ter chamado tantos lugares que desejou de casa, mas teve medo demais e por isso mereceu só uma.

Cada um sabe de suas escolhas, mas se eu posso dar um conselho para quem quer ir: vá. Apenas vá. Tem gente que não gosta quando eu simplifico as coisas com um “apenas”, pois faz parecer que as coisas são fáceis. Eu mesma friso que não são. Mas é que a gente complica tanto, que se nós apenas fossemos, ninguém passava a vida sem teto. Ninguém se sentia sem casa.

Eu não sei quem inventou as fronteiras e quem nos fez presos a umas e não às outras. Mas eu sei que o mundo é grande e que eu ainda vou descobrir muitas casas vagando por ele. E aos que não gostam disso, desculpem o transtorno.

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Sobre o Autor

Nataly Lima

Mestre em jornalismo natural de São Paulo, hoje tem a Europa como a sua base. É apaixonada por conhecer novas culturas, comer, viajar e contar histórias sobre esses e outros assuntos.

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