Sempre que me convidam para alguma entrevista ou reencontro algum amigo que não vejo há muito tempo, a pergunta vem à tona: “quantos países já você visitou“?

Parece que impacta mais se você tiver cruzado muitas fronteiras em vez de realmente ter tido tempo de explorar um único só local.

Quando era mais nova também achava interessante saber quantos países meus amigos mais viajados já tinham visitado, meio que para me situar nessa competição inconsciente de quem vai conhecer mais até X anos de idade. Também para saber quantos ainda faltava riscar ou acrescentar na lista.

Hoje vejo que essa contagem não faz mais o menor sentido pra mim. Primeiro que acho muito complicado afirmar que se conhece um país. Por exemplo, há muita gente que considera conhecer visitar apenas por dois ou três dias a capital de algum lugar. Mas gente, o que é que se conhece nesse tempo? Será que ter visitado os pontos turísticos de uma única cidade e ter tirado 200 #selfies significa conhecer mesmo?

Eu me nego a dizer que conheço a Irlanda do Norte. Passei apenas um dia lá visitando o Giant’s Causeway. Estou muito longe de conhecer.

Holanda? Não conheço. Visitei apenas um pouquinho de Amsterdã durante a semana do Natal. Bélgica? Só Bruges, e meu conhecimento sobre o que o país tem é tão pequeno quanto essa cidadezinha encantadora.

Agora, se você me perguntar quantas experiências vivi em minhas viagens, isso sim tenho prazer em te contar.

Para mim esse tipo de “souvenir” é muito mais importante. Ter como meta não apenas números vazios, mas histórias. “Qual a experiência mais marcante que você viveu em Portugal”? “Como que é isso de almoçar na grama lá em Londres”? “Você já fez amigos aí no Leste Europeu”? “Já sabe falar um pouco da língua”? “Qual o cenário mais lindo que viu nesse verão”?

Eu troquei minha bucket list por um diário de viagem que servirá um dia, quem sabe, como  esboço para um futuro livro. Ou só para me relembrar do que vivi quando já estiver um pouco velha, talvez muito caduca.

Eu quero é rir de todos os perrengues que passei (afinal, já passaram mesmo). Eu quero é rever as fotos que tirei e nunca postei, mas que hoje me ajudam a lembrar o que senti, descobri e quem conheci em cada lugar.

Minha cara de azeda em Londres ao descobrir que a mostarda inglesa é apimentada pra caramba. Minha casa toda alagada no Porto, porque descobrimos que banheiro na Europa não tem ralo além do que fica no espaço do chuveiro.

Minha cara de satisfação por chegar naquela cachoeira com acesso super difícil quando fui acampar com amigos novos, no parque do Gerês.

Meu chilique quando descobri que na Croácia não tem creme de cabelo e tive que fazer um gel de linhaça pra pentear.

Isso tudo sim, eu quero contar. No almoço com os amigos, no Natal com minha família, para meus futuros filhos e netos. Para mim mesma, caso um dia eu me pegue pensando o porquê gastei dinheiro viajando em vez de comprar um carro.

Por isso, não. Não me me peça mais para contar países. Eu nunca fui boa com exatas mesmo. Mas se quiser, pode me pedir para contar histórias. Eu sempre gostei de palavras.

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Sobre o Autor

Nataly Lima

Natural de São Paulo, mas hoje tem a Europa como sua base. É mestre em jornalismo, mas não dá aula em faculdade. No momento só quer compartilhar o que vê pelo mundo.

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