Quatro malas e um sonho sem alça

Demorei para descobrir o prazer de arrumar as malas, minha primeira viagem internacional foi aos 29 anos. Eu era da turma que “entre a Disney e a festa de 15 anos”, escolheu a festa. Confesso que me arrependo, pois conhecer lugares é bom demais.

No Brasil conheci o Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Hoje moro nos Estados Unidos. Larguei carreira, deixei pra trás os amigos, arrumei 4 malas grandes e comprei as passagens. Vou tentar explicar como tudo aconteceu…

Mesmo indo bem na profissão da área da saúde, meu sonho era simples: uma família grande e em segurança.

Me casei em abril de 2011 com um rapaz que também nunca havia saído do país. Passamos lua de mel na casa do meu irmão em Belo Horizonte. Em novembro do ano
seguinte fazíamos nossa primeira grande viagem das nossas vidas, primeira viagem internacional.

Tiramos passaporte e preenchemos em casa o formulário do visto pois o dinheiro estava bem curto. Tínhamos um bebê de 7 meses (o João) e um pré adolescente de 13 anos (o Pedro). Eu, marido e filhos: Miami, na Flórida, era o destino. Meu pai morava lá e eu poderia me hospedar sem gastos porém ver o Mickey não estava nos planos pois os parques eram bem caros e não dava pra irmos todos, era mesmo só pra vivermos a experiência de sair do país.

Lembro-me que dividi as passagens no cartão de crédito em algumas várias vezes e tínhamos apenas uns 1.000 dólares. Foi uma viagem inesquecível: sem programação, sem pesquisa, sem organização, tudo bem amador.

Não tínhamos muita certeza de nada, tudo era diferente: fizemos escala no Panamá, não entendia os horários dos voos, a comida do avião e amei as lojas. Putz! As lojas.Como foi bom passear nas lojas e outlets de Miami, mesmo sem grana. Tudo era lindo. A estrada, os coqueiros, as praias, os mercados, as lojas, ops, sempre volto nelas.

Foram 20 dias ma-ra-vi-lho-sos. Pude conhecer o dia a dia do americano, as escolas e um pouco da vida ali.

No retorno a São Gonçalo, periferia do Rio, onde morei por 5 anos, só tínhamos uma certeza: queríamos trazer os Estados Unidos na mala. O mercado, o asfalto, os estacionamentos e o silêncio. Eu também queria os shampoos, o detergente de pia e o triturador da cozinha. Foi difícil a volta, não sabíamos que existia um mundo fora da nossa caixinha.

Acabamos de pagar as passagens e marcamos minhas férias do trabalho e o destino seria novamente a Flórida. Dessa vez sozinhos, sem os filhos. Voltamos ao Brasil mais encantados e certos que queríamos ter mais bebês e criá-los naquele lugar. Não sabia como, quando, mas sabia que queria e isso já bastava pois
meu marido queria também.

De maio de 2015 até março de 2016 nosso foco era morar nos Estados Unidos da América.

Começamos a pesquisar na internet uma fórmula mágica de viajar sem dinheiro. Não tínhamos nada guardado, então era praticamente impossível. Acontece que somos cristãos e aprendemos a ser determinados e confiar que basta crer.

Meu esposo estava desempregado. Enfermeiro pós graduado e não conseguia emprego. Eu morava num bairro perigoso. Trabalhava a uma hora e meia de casa. Pegava 2 ônibus e acordava 4:45 da manhã. Estava estressada.

Leo meu esposo estava desmotivado.

Éramos constantes na igreja e liderávamos um grupo de adolescentes que precisavam de um futuro melhor, então pensamos: vamos abrir uma academia de jiu jitsu na Flórida. (Mandaremos todo o dinheiro arrecadado para o Brasil e investiremos nos jovens da periferia.) Mas só tínhamos a ideia e dois reais na
carteira. E um cartão “RioCard” de ônibus penso eu que sem valor algum dentro.

Pra completar a dificuldade dessa mudança radical, em outubro a passei mal e fiz um teste que deu positivo pra gravidez. Quarto filho.

Pronto. Desistimos.

Grávida, na Flórida?? Sem condições alguma. Fui pesquisar os valores de parto e quase tive um infarto. 15, 20 mil dólares. Foi um período bem ruim pois meu esposo estava bem empolgado e cheio de planos.

Bom, a formação em atriz me fez ser bem cara de pau e então entrei no facebook e comecei e pesquisar sobre gravidez no exterior, quem conhecia quem, essas coisas. E mandei mensagem pra todo mundo que eu via pela frente.

Descobri um casal de pastores que conhecia uma moça que engravidou na Flórida e foi ter bebê em Massachussets pois o plano do governo cobria o parto. Partiu Massachussets. (Primeiro eu tive que aprender a escrever o nome do lugar onde pretendia morar.)

Era uma corrida com obstáculos:

Dinheiro.

Família.

Tempo (Eu precisaria viajar antes do final da gravidez).

Comecei a incentivar meu esposo. Mesmo sem saber direito sobre Boston alguma coisa me dizia que ia dar certo. Eu mostrava fotos da cidade, fotos dos parques, mas era muito diferente da Flórida. Não tinha coqueiros, praias de areia fina, casarões planos, pelo contrário: muito prédio de tijolinho, neve, e folha seca no chão. Totalmente oposto ao clima em Miami.

De qualquer forma seria melhor do que o estávamos vivendo com ele desmotivado e eu estressada. Mesmo tendo uma carreira profissional promissora na aérea da saúde, meu maior sonho era ver minha família em segurança e com maiores oportunidades.

Nós tínhamos um carro popular 1.0 e algumas coisas em casa e anunciamos pra venda. Começamos pela televisão, cama de solteiro, geladeira, coisas de casa.
Muitos da família perguntavam se éramos malucos.

Pela internet eu conversava com uma moça que morava em Lowell MA e me dava dicas. Nessa altura, mais do que nunca precisava dar certo.

A gota d’água foi quando os traficantes do bairro ao lado mandaram fechar o comércio e eu entrei em casa vi um aviso da escola dizendo que a mensalidade iria aumentar. Pra fechar com chave de ouro um casal se mudou pra casa da frente e faziam churrasco e festa sempre com som alto e muita bagunça. Chega. Eu queria viver o que via nos filmes: ligar pro 911 e ser atendido em 5 minutos.

E aí? Será que conseguimos? Mal sabia eu que a aventura estava apenas começando.

Obs.: O conteúdo é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do Já Fez as Malas.

 

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