10 hábitos que adquiri ao morar em Portugal

Mudar para outro país implica, naturalmente, mudança: de hábitos, de rotina, de vida, de foco. Essas alterações podem ser bruscas e causar um grande impacto, às vezes até trazer uma certa infelicidade e sensação de perda do “eu”. Outras ocorrem sem nem nos darmos conta e existem ainda aquelas que parecem ínfimas, mas representam grandes passos.

Mas é como diria Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Depois de quase 6 anos em Portugal, parei para pensar um pouco no que mudou, alterou, veio, foi, perdi, adquiri…e, olha, ainda são algumas coisinhas. Conversando com amigos expatriados na terra de D. Pedro, percebi que não foi só comigo. Será que mais alguém aí se identifica?

1- Jogar papel higiênico dentro do vaso sanitário

Não sei vocês, mas eu fiquei muito chocada quando descobri que era assim que as coisas funcionavam por aqui. Não, espera: fiquei MUITO chocada mesmo. O meu marido, que morava sozinho até eu chegar, nem tinha um cesto de lixo no banheiro. Não era algo que ele sequer tivesse equacionado comprar porque não era assim tão necessário. Levei meses para internalizar esse fato, mas foi libertador quando aconteceu.

Na verdade, na Europa como um todo e nos Estados Unidos eles ficam escandalizados só de pensar na possibilidade de lidar com aqueles resíduos, digamos, nada “recicláveis”. Isso tem muito a ver, claro, com uma rede de esgotos bastante mais eficiente que a nossa no Brasil, que abranje pouco mais de metade população atualmente.

2- Cumprimentar e conversar com pessoas que eu não conheço

“Conheces aquela pessoa?” “Não, mas ficou a olhar para mim e eu cumprimentei”. Simples assim. Nunca sequer tinha pensado nessa possibilidade. No máximo, se alguém olhava para mim, eu ficava intimidada e baixava os olhos ou fechava a cara. Não é falta de educação, mas, não sei, há tanto medo, desconfiança, receio. Como se não pudéssemos ser muito abertos (especialmente as mulheres) porque vai parecer outra coisa. Também nunca fui muito de engatar conversa em filas, no ponto de ônibus.

Para mim, não foi uma barreira fácil de quebrar. Na verdade, ainda estou em processo. É preciso uma certa abertura, uma certa disponibilidade, mas foi em muitas dessas conversas casuais (e vagas até) que eu entendi mais Portugal. Não posso falar por todas as regiões e cidades do país, mas no Porto não é difícil encontrar pessoas que gostam de conversar e contar da vida, das alegrias, dos problemas. Às vezes, eu sou uma delas também e gosto disso.

3- Comer sopa habitualmente

Tenho muito orgulho de mim por isso. Confesso. Até colocar os dois pés nesta terrinha, sopa, para mim, era coisa de doente, de hospital. Então eu descobri que a dita cuja está presente em todos os lugares por aqui, em todas as estações do ano. No restaurante, é entrada. No supermercado, tem sempre uma seção com vários tipos, combinações e sabores. Não dá para escapar.

Eu me rendi, adotei, amo e até aprendi a fazer algumas. Faça chuva, sol, trovoada, granizo ou um calor descomunal, estamos aí com a sopa na mesa.

4- Usar pouco sal e temperos na comida

E já que estamos falando do assunto, essa foi mais uma coisa mudei com o tempo. Você raramente vai encontrar comida bem salgada por aqui. Não é que seja insossa, mas (e pelo menos para os meus padrões nordestinos) se eu pudesse, colocava sempre um pouco mais de sal.

Acontece que fui acostumando e desapegando. Aprendendo a fazer feijão sem Sazón, temperando as carnes sem aquelas misturinhas de supermercado…Não é que não tenha. Cada vez mais supermercados daqui colocam marcas brasileiras nas suas prateleiras e existem também já muitos mercadinhos com produtos do nosso país. O meu gosto pessoal que mudou e ficou tudo mais à base de azeite, alho, cebola, louro, cominhos e pimenta preta, no máximo. Mas se alguém quiser me mandar uma Maria Isabel e uma paçoca de carne de sol, estou aceitando! (Piauienses entenderão!)

5- Andar mais devagar

Muito por medo, eu andava sempre rápido na rua no Brasil. Antes de vir pra cá, eu morava no Rio, tinha aula à noite no Centro, então, imagina. Tudo o que eu não podia fazer era ficar “vacilando” e correndo o risco de ser assaltada.

Meus primeiros tempos no Porto foram de sobressalto. Andava sempre com medo, assustada nas ruas mais desertas, o coração disparava toda vez que ouvia uma moto ou que sentia alguém caminhando atrás de mim na calçada. Demorou um pouco até que relaxasse. Não é que as coisas não aconteçam aqui. Tem assalto à mão armada, tem roubo de carro, tem caixa eletrônico que explode, tudo isso. A questão é que é uma escala tão menor que nem vale a pena comparar.

Mais relaxada, eu consegui admirar a cidade, parar, ficar conversando na rua, não andar esbaforida, a menos que eu tenha uma pressa real. Viver sem o medo constante é verdadeiramente libertador.

6- Usar o celular na rua

Esse é um outro hábito que, para mim, era muito condicionado pela segurança. Pela falta dela, na verdade. Na rua, eu andava sempre com o celular no silencioso, para não correr o risco de tocar em momentos tensos, e escondido em um lugar não muito óbvio. Meus celulares nunca foram os mais modernos do universo, mas eu tentava pensar estrategicamente: se algo acontecer e sobrar o celular, eu posso, pelo menos, pedir ajuda. Paranoias? Talvez.

Aqui, e com duas filhas, ando com ele na mão muitas vezes e nunca no silencioso, para não correr o risco de perder ligações da creche. Se eu deixá-lo no bolso, nunca vão pegar? Se cair no chão, vão me devolver com certeza? Nunca se sabe. Os famosos batedores de carteiras são comuns aqui e adoram esses descuidos, mas vale o que eu falei anteriormente: uma coisa é ter cuidado e atenção e outra é andar constantemente com medo.

7- Assoar o nariz na frente de terceiros sem pudor

Antes que vocês torçam o nariz de nojo, eu explico: não, eu não ando por aí dando aquela assoadela marota e depois limpando a mão na roupa. Eca! Eu sou bem limpinha, tá? Com a umidade, a presença bem definida das estações do ano, tem sempre alguém perto de você resfriado ou com coriza. E não tem esse negócio de ficar ali fungando, esperando um momento de privacidade para conseguir limpar o nariz. Você faz o que tem que fazer e ninguém tem a ver com isso. Fim.

Acho que nós temos muitos pudores em relação a esse assunto e preferimos ficar naquela aflição ou então procuramos urgentemente um banheiro. Se começar com aquelas fungadas, pode ter certeza que vão olhar torto ou então, como já me aconteceu, vão oferecer um lenço de papel para vocês libertarem o que precisar sair daí. Na dúvida, façam como eu agora: não se reprimam, mas com classe (e lencinho de papel!).

8- Falar “com licença” ao desligar o telefone

Sim, vocês leram direito. As pessoas pedem com licença quando desligam o telefone, quase como se pedissem desculpas por ter ligado. “Com licença, pode voltar à sua vida normalmente que eu volto para a minha” é mais ou menos isso o que interpreto. Sempre adorei, achei delicado, super educado, mas não pensei que fosse conseguir usar. Fui criada à base do “Pois tá bom. Tá. Tchau”.

Diariamente, eu convivo e falo mais com portugueses do que com brasileiros. Então, sem querer, vou adicionando coisas e, quando vi, estava pedindo licença no fim de uma ligação. Vale ressaltar que isso não vale quando é a minha mãe que liga! “Pois tá bom, mãe. Ahh! Eu nem contei! (fala mais meia hora) Pois tá, mãe. Tá bom. (mais meia hora). Tá bom. Beijo. Pra senhora também. Beijo. Tchau. Tá bom, mãe. Beijo. Boa semana. Beijo”

9- Desapegar de marcas

Brasileiro adora marca. De carro, de roupa, de sapato, de produto de limpeza até. Nós, muitas vezes, chamamos o objeto pelo nome da marca e podemos ser bastante desconfiados com marcas desconhecidas.

Nunca fui muito apegada, nunca tive coisas apenas de uma determinada marca (muito menos se fosse cara) mas, claro, tinha as minhas preferências. Aqui, abandonei totalmente isso. No supermercado, por exemplo, prefiro mil vezes mais os produtos das chamadas marcas brancas (que são as próprias dos supermercados) do que de outras mais conhecidas. Costumam ser mais baratas e a qualidade não deixa nada a desejar. Sabonete, pastas de dentes, creme pro corpo, pro rosto, arroz, cereais, bolacha/biscoito, tudo. A gente vai testando e economizando.

A meu ver, não importa muito, para a maioria das pessoas por aqui, se você anda com um casaco de 15€ ou de 150€. Ninguém anda inspecionando, julgando ou cobrando. Funciona? Você gosta? Sim? Ótimo.

10- Viver mesmo quando está chovendo

Ok, o meu maior desafio talvez seja esse. A minha maior vitória, na verdade, porque eu consegui ultrapassar essa questão. Na minha cidade, onde não chove muitos dias por ano e nem há uma estrutura para chuva (alô, alagamentos, acidentes, etc), eu estava acostumada a adiar todo e qualquer plano por causa de um chuvisco qualquer, principalmente porque eu não tinha carro. Não saía à noite, não ia para a aula naquele dia, gastava vários reais de táxi para ir trabalhar.

E aqui no Porto? 8 meses de chuva por ano. Não há a opção de não viver quando chove ou, basicamente, você não vive. Continuo sem dirigir e, para fazer deslocamentos, somos eu, minhas perninhas, meu guarda-chuva resistente (ou nem tanto) e o transporte público. É tranquilo? Não, até porque aqui chove em todas as direções, não apenas de cima para baixo, mas haja adaptação.

Eu escolhi essa vida e existem sempre ônus e bônus. Aquela história da zona de conforto é tão lugar comum, mas ao mesmo tempo tão verdade. Você sai daquela bolha e descobre que nem o papel higiênico se coloca no lugar em que você aprendeu desde que se entende por gente. É “realfabetizar-se” em cotidiano, em vida prática, e, no meu caso, nem tive que aprender um novo idioma.

Isso tudo não quer dizer que quis ser portuguesa, que meus hábitos brasileiros eram/são errados. Esta sou eu hoje, que vim de outro lugar, mas que também sou um pouco daqui agora. Mesmo com menos temperos, céu cinza para mim ainda é “bonito pra chover”, todas as minhas amigas são “mermã” e tenho saudade de ter um tanque. E um banheiro com ralo.

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