“Quem é o louco que cruza o Atlântico de barco hoje em dia?”

Foi essa a frase que eu disse para o meu marido quando ele comentou que a gente podia algum dia cruzar o Atlântico em um barco há uns 4 anos atrás. Para mim não tinha o menor sentido fazer esse trajeto. Por que uma pessoa ia se meter em um barco semanas se ela pode entrar em um avião e chegar do outro lado em horas?

E aqui estou eu, prestes a fazer essa travessia. Sim, vou fazer exatamente o que eu achava uma loucura há alguns anos e por isso começarei esse texto reforçando a famosa frase “Nunca diga nunca”. Vou embarcar esse mês e ir da Europa para o Caribe. Ficarei provavelmente mais de duas semanas sem ver terra e vivendo em um espaço pequeno com 5 adultos e 2 crianças.

Por que esses loucos atravessam o oceano?

Quando achei uma loucura essa história toda, ainda não estava envolvida em temas náuticos e sabia pouco sobre esse mundo. À medida que fui fazendo navegações curtas, curso e tirando títulos, comecei a ver um universo que eu nem sabia que existia.

Existem milhares de pessoas por aí que vivem em barcos. Desde alguns solitárias até famílias numerosas, muitos usam o barco como meio de vida. Há quem trabalhe na Europa no verão e depois vá aproveitar os meses mais quentes do ano no Caribe, por exemplo. Outros estão fazendo a sua volta ao mundo e muitos deles começam no continente europeu. Todos esses barcos e pessoas necessitam cruzar o Atlântico em algum momento para seguir com os seus planos.

Ventos do descobrimento da América

Quase todos que querem cruzar o oceano Atlântico aproveitam os ventos que sopram desde da Europa até o Caribe, os Ventos Alísios. Esses foram os mesmos que ajudaram com que as caravelas chegassem até a América. Para tirar proveito desse verdadeiro fenômeno natural, a maioria dos barcos sai em novembro.

O barco em que eu vou fazer a travessia vai participar de uma regata famosa por aqui que chama ARC. Nem todos que participam da regata estão competindo, muitos deles se inscrevem pela organização e segurança, o que é o nosso caso.

A regata obriga que cada barco tenha vários equipamentos de segurança. Além disso, há um sistema de acompanhamento por GPS onde eles monitoram todos os barcos. Esse foi um dos motivos que me convenceu: me senti bem mais segura em saber que o barco estava inscrito e era acompanhado.

Pela ARC, chegam a se inscrever cerca de 300 barcos que partem no mesmo dia. Além desses, vários outros saem na mesma época.

Tempo em alta mar

Se você nunca andou de veleiro, vou te contar um pouco como funciona a navegação. Um barco à vela tem motor, mas este não é muito potente, sendo usado basicamente para entrar no porto. Funciona ainda para ajudar caso não tenha vento ou em condições meteorológicas adversas.

A maior parte do tempo é preciso navegar à vela, principalmente porque as pessoas não costumam ter tanto combustível assim (e dinheiro) para fazer tudo a motor.

Outra coisa importante é que a navegação à vela é uma navegação lenta de forma geral, que requer paciência. Se o vento estiver fraco, quase sempre esperamos pacientemente até que venha um vento mais forte. Simples assim. Uma velocidade considerada boa seria o equivalente a 12km/h, mas às vezes temos que nos conformar com uns 5km/h mesmo.

O tempo para atravessar o Atlântico varia, então, de acordo com o vento, já que dependemos quase 100% dele. Costuma levar de 14 a 20 dias mais ou menos. Isso mesmo, de duas a três semanas!

A Tecnologia e a segurança

A tecnologia melhora a cada dia a segurança no mar. Obviamente depende muito de cada barco e de quanto cada pessoa investe nesses equipamentos.

No barco que eu vou, terá o básico e indispensável sistema de GPS. Além disso, será possível acompanhar nosso roteiro através de um link que mostrará onde estamos a cada 3 horas. Também terá um telefone satélite que permite falar com qualquer lugar em caso de uma emergência e mandar mensagens SMS de forma ilimitada.

Nós também teremos internet, mas bem básica. Será o suficiente só para descarregar as previsões do tempo, o que também é obrigatório se você for participar dessa regata que eu comentei.

Dá medo?

Pensar que você estará no meio do oceano sem nenhum tipo de terra por tanto tempo e essa insegurança sobre o desconhecido dão medo sim. Mas, sinceramente, eu já passei por outros momentos na minha vida que tive medo e não me arrependo de nenhum.

Eu acho que a probabilidade de acontecer um acidente em uma estrada maior do que acontecer um acidente no mar. Hoje em dia, como eu comentei, a tecnologia ajuda e muito para não acontecer nenhum imprevisto grande.

Uma coisa que ajuda a gerir esse receio é que eu já sei um pouco como é o esquema do barco. Além disso, estou mais que acostumada a viver em um espaço pequeno e saber como é cuidar dos recursos disponíveis já que viajo sempre com a minha motorhome. Agora, ficar tanto tempo sem poder ter acesso a água e alimentos, com certeza, é um dos desafios dessa viagem.

Também vale lembrar que não é um cruzeiro de luxo. Todo o trabalho é compartilhado, inclusive as vigilâncias noturnas. Então, provavelmente será bastante cansativo. É uma experiência de auto suficiência, autoconhecimento, de convivência e força. E acredito que são esses os motivos que levam as pessoas a quererem encarar essa aventura.

Se quiserem me acompanhar, compartilho mais informações principalmente meu Instagram Tempo de Migrar. Então, me segue lá e compartilha com alguém que você acredita que gostaria de cruzar os mares também.

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna Julia Queiroz. Siga também o blog da Julia.

 

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