Meu lugar no mundo. O PETAR despertou em mim, desde nosso primeiro encontro, uma nova visão do mundo, da vida, de mim mesmo. Na verdade não consigo mais falar de PETAR (ou das cavernas), na terceira pessoa, pois EU SOU as cavernas. Poderia tentar explicar mil motivos pra isso, mas nem me darei ao trabalho. Vá e veja. Talvez apenas eu me sinta tão vivo e vinculado, mas recomendo que tente. Estar dentro de centenas de quilômetros de montanhas de calcário, majestosamente moldadas por milhares ou milhões de anos, gota por gota, tremor por tremor, debaixo de centenas de metros e toneladas de morros preciosamente calculados para que, num breve momento da humanidade, pudéssemos perceber nossa real proporção diante de nós mesmos, natureza.

Em cada caverna que entro, as sensações são as mais variadas, mas há uma constante: como se estivesse utilizando o Google Maps, dou um “zoom out”, minha mente se transporta pra fora, e percebo meu tamanho, tal qual formiga num minúsculo túnel dentro da terra, e pronto, estou novamente no meu devido lugar. Para aqueles que acham que estou diminuindo a importância e potencial humanos, obviamente sintam-se blasfemiosos. Ao contrário, a energia concentrada em cada centímetro de sedimentação divinamente esculpidos, eleva a capacidade humana à décima potência. Nos faz enxergar dentro de nós mesmos, dimensionar o infinito organismo que somos, eu, vós, eles, universo (uni-verso), pois assim como a célula é invisível aos olhos mas imprescindível ao todo, o SER humano possui também sua infimidade e ao mesmo tempo gigantesca relevância nesse magnífico corpo, Gaia. Cada ser é único, cada caverna é única, e cada sensação em cada caverna é única.

Após dois dias pintando os muros da Pousada Núcleo Terra, tive 3 dias para visitar as cavernas e fazer as trilhas. Por algumas serem restritas à visitação, não vou citar nomes nem posso entrar muito em detalhes sobre cada experiência. Mas entre as várias novas cavernas que visitei, destaco o Portal da Casa de Pedra, considerado o maior pórtico de caverna do mundo, com cerca de 215 metros de altura. Para chegar até o portal, é necessário entrar pelo Núcleo Casa de Pedra, na cidade de Iporanga (a 5 minutos da Pousada Núcleo Terra), e realizar uma trilha (aviso, bem puxadinha), de mais ou menos 2 horas, sempre acompanhado de um guia autorizado pelo parque. Passeio indispensável pra quem visita o PETAR.

No PETAR há mais de 300 cavernas catalogadas, das quais apenas 22 (se não me engano) são abertas para visitantes devidamente guiados. Há várias justificativas pra isso: 1. pode haver risco de desmoronamento / 2. difícil acesso / 3. algumas possuem registros arqueológicos que não podem ser alterados pelo homem, como ossadas, pinturas e outros indícios / 4. Muitas estão em propriedades particulares e não possuem plano de manejo.

E, na boa, conhecer lugares assim, infelizmente, não é pra todo mundo. O homem ainda tem muito o que evoluir pra poder acessar livremente locais assim. Basta entrar na Caverna do Diabo pra entender o tanto de interferências humanas foram causadas simplesmente para que possamos “ver” a caverna por dentro. Há poucos que possuem senso suficiente para preservar, cuidar e defender, e acredite, nem eu mesmo posso me considerar um deles, pois estou suscetível a cometer diversos erros ao entrar numa caverna. Procuro respeitá-la, amá-la, afinal, estarei respeitando e amando a mim mesmo, se assim o fizer. Então, nessas 22 cavernas abertas ao público, peço do fundo do meu coração, que sejam bem cuidadas pelos novos (e pelos antigos) visitantes.

Mas chega de tristeza minha gente, pois se tiver bom senso, respeito e amor, VÁ E VEJA! Há cavernas de todos os tipos: pequenas, gigantes, com água, sem água, buraqueira ou salões maiores que ginásios esportivos, abismos e descidas em negativo, enfim, é literalmente um paraíso. E bem ali, no Estado de SP mesmo, nem 350 km da Capital, estradas boas, pousadas e campings, tudo pra que você presencie ao menos uma vez na vida essa obra sem igual. Pra quem acha que é só mundo afora que se encontra maravilhas naturais, nem sabe o que tem no quintal de casa. Tem caverna azul, preta, marrom, vermelha e branca. Ah, a LAJE BRANCA! Esse lugar é meu favorito, se é que teria a pachorra de escolher um. Menos de 1 hora de trilha descendo (que, prepare-se, terás de subir depois), vê-se um imenso paredão branco em meio a floresta de mata atlântica intocada. O espetáculo é único. A caverna se estende por quase hum quilômetro morro a dentro, por uma fenda que começa com cerca de hum metro de altura e se amplia pra dimensão de alguns ginásios de esportes. Descendo num desnível de cerca de 150 metros pra dentro da terra, por rochas gigantescas que em algum momento se desprenderam do teto graças a água e tremores, chega-se num imenso salão com terra fofa, argila! Centenas de metros quadrados, no fundo da montanha, da argila mais fofa que já pisei. A caverna ainda se prolonga por dezenas de metros por um pequeno buraco pelo qual só passa uma pessoa por vez, com cordas e equipamentos de escalada, no qual nem eu ousei me arriscar (grande risco de desmoronamento). Mas estar dentro da Laje Branca, pra mim, é como andar na lua (tá, eu nunca andei na lua, mas deve ser tipo isso!), pois até a sensação de gravidade e o ar são diferentes. Lugar mágico!

Para terminar, o guia me levou ao “buraco do tatu”. Só olhando pro dito cujo pra entender. Literalmente um buraco na terra, pelo qual só passa uma pessoa por vez, é necessário amarrar uma corda na árvore mais próxima e descer negativamente ao melhor estilo rapel. Cerca de 6 metros abaixo se inicia um pequeno labirinto de mais ou menos 300 metros. Não encontrei até hoje adrenalina mais viciante em esportes do que descer uma caverna usando cordas. Quanto mais estreita a passagem, maior a sensação de superação.

Deixei o PETAR, como sempre, com o coração apertado, mas era necessário seguir. Uma nova experiência WWOOF me aguardava em Bocaiuva do Sul, Paraná, primeiro momento de cruzar Estados.

E ao mesmo tempo que fui inundado de energia, uma parte de mim ficou, novamente, nesse lugar ao qual pertenço.

Para saber mais sobre o PETAR, visite os sites:

Para acompanhar mais fotos, eu jogo tudo lá no Face: Efeito Borboleta (Victor Reider Loureiro).

 

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Sobre o Autor

Victor Reider Loureiro sai pelo mundo pra provar que o bater das asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do planeta. Escreve na coluna "Efeito Borboleta".

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