Como as voltas que o mundo dá nos fizeram chegar até Aveiro

A jornada do Brasil até Aveiro não foi simples, mas eu vou tentar resumir como chegamos até aqui. Foi em fevereiro de 2017 que começamos o nosso planejamento. Ouvi relatos de amigas de lugares diferentes sobre mudar para Portugal, fiquei intrigada e contei para o Gustavo.

Começamos a pesquisar, levantar dados importantes e pensar muito até concluir que, dentro dos nossos objetivos de vida, mudar faria mais sentido do que permanecer em São Paulo. Entre bolar as nossas estratégias, decidir pela região, oficializar o casamento, cuidar de burocracias diversas, desmontar a casa e repensar a estrutura da empresa (de uma forma muito menos linear do que aqui parece), levamos pouco mais de 12 meses. Em 1º de março de 2018 estaríamos no Porto. 

Ao longo desses meses vimos a onda da imigração para Portugal aumentar. Lemos relatos inúmeros sobre as dificuldades do mercado imobiliário, vimos o euro oscilando e aquela coisa toda. Achávamos que estávamos suficientemente preparados – até reservamos mais tempo de AirBnb do que as pessoas que acompanhávamos recomendavam.

O mês veio, o mês passou. Procuramos no Porto, Gaia, Maia, Matosinhos, Espinho e arredores e, depois de tentar todas as estratégias, nada de apartamento. E quando eu digo todas, eu me refiro a:

  • checar grupos e sites especializados a cada meia hora;
  • fazer contato com toda e qualquer pessoa que sabíamos que tinham alguma conexão em Portugal;
  • bater perna (às vezes, por 12 horas seguidas) atrás de placas de aluguel;
  • deixar nosso contato em qualquer imobiliária;
  • até abordar completos desconhecidos na rua, perguntando se sabiam de algum apartamento disponível pela região.

Nós tentamos de tudo. Participamos de alguns “leilões de aluguel”, discutimos com alguns senhorios, choramos no meio da rua e quase – quase – voltamos para o Brasil. Os apartamentos que apareciam eram alugados em poucos minutos ou eram absurdamente mais caros do que as condições que ofereciam. Ainda tinha a história de muitos senhorios pedirem de 6 a 12 meses de caução

Pra piorar, não contamos com um detalhe no nosso planejamento: o feriado da Páscoa é muito forte em Portugal e caía exatamente no final da nossa estadia no AirBnb. Ou seja, só ali na região do Porto a ocupação chegou aos +95%.

Já no primeiro mês aqui, Portugal deu a lição mais importante: você pode pensar em plano A, B, C e o alfabeto inteiro, mas é bom que sobre outra porção de caracteres na manga. Resumindo bem a história, depois de passar 3 semanas reorganizando a vida e os planos na casa de parentes em Madri, resolvemos voltar a Portugal por Aveiro.

Por que Aveiro?

Tinha transporte de volta direto pra cá, já sabíamos algumas coisas por pessoas que acompanhávamos na região, parecia bonita e era muito bem localizada. Teríamos a possibilidade de procurar imóveis em Coimbra e Lisboa, além do Porto, caso não nos encaixássemos aqui.

Ao chegarmos, resolvemos dar uma volta para sentir o clima nas imobiliárias. Logo recomeçou aquela conversa que ouvimos nos arredores do Porto: não há imóveis para arrendar. Já na quarta imobiliária, finalmente tinham unidades disponíveis pra visitação. Prédio novo, bem localizado, fora de vários dos nossos critérios, mas dentro do orçamento. Abraçamos.

Pois é. Nós caímos aqui completamente de paraquedas e só confiando no potencial da região, mas foi uma grata surpresa. O lugar é uma graça, estamos em um ótimo ponto do país, o clima é bem agradável e a cidade tem muito mais opções do que parece. Eu, por exemplo, sou a louca dos cafés e já tenho uma listinha generosa dos meus queridinhos daqui.

A cidade tem suas desvantagens, como a dificuldade de se locomover sem carro quando se sai do centro (preferimos não dirigir) e é consideravelmente menor que o Porto – mas o saldo ainda é positivo.

No fim das contas, a minha documentação (como familiar de cidadão europeu) saiu muito mais rápido e outros detalhes da vida também se ajeitaram antes. O plano que era provisório (de ficar aqui só inicialmente) talvez se prolongue por mais tempo, inclusive.

Dessa volta toda, tiramos algumas lições

Os pontos que eu listo abaixo foram coisas que tirei da nossa experiência. Pode ser que a sua seja diferente e que metade dessas coisas não façam o mesmo sentido, mas compartilho porque acho que vale pelo menos pensar.

Dobrar a meta

Planejamento é essencial e nunca vai ser suficiente. Se você estima um mês até encontrar apartamento, considere dois. Se planeja 3 meses até organizar a vida, conte com pelo menos 6. Se pensa em procurar um apartamento por 100, considere pelo menos 150, se não 200 (esses são números hipotéticos, só pra deixar claro). Você pode dar sorte e resolver tudo ou pelo menos algumas coisas antes do que espera? Sim! Mas a dor de cabeça vai ser infinitamente menor se você tiver uma margem maior do que pensou inicialmente.

Ter clareza do que é imprescindível e do que é negociável

Nós tivemos que abrir mão de muitas coisas que em um primeiro momento não considerávamos negociáveis. A cidade em que moraríamos, tamanho e estrutura do apartamento, principalmente.

Assim como para muitos outros que encontramos por aqui, a vida nos deu uma volta e obrigou a repensar tudo. Descobrimos que imprescindível é só aquilo que de fato vai fazer alguma diferença no contexto maior.

Nós não queríamos carro, então era importante morar perto de algum lugar que nos desse alguma mobilidade (check – ainda que não seja o ideal). Não queríamos esperar por talvez um ano até terminar com todas as burocracias de regularização (check). Achávamos absurdo pagar 1 ano de caução ou participar de leilão de quem paga mais por um apto que vale muito menos, então as condições teriam de ser razoáveis (check). Conforto térmico e isolamento do apartamento era importante porque no inverno o barato pode sair bem caro (check – muito melhor do que o previsto, aliás).

Focar no objetivo maior

Por que se está mudando de país? O que se espera tirar disso? Quando se tem clareza do que nos leva a qualquer lugar, é muito mais fácil se adaptar. No nosso caso, queríamos mais mobilidade, em um lugar bonito e por um custo de vida mais baixo. A ideia principal era de viver novas experiências e, dentro da vida que pensamos pra gente, isso poderia ser no Porto ou em muitas outras cidades mais ao centro.

Se a gente tivesse vindo para estudar no Porto, por exemplo, provavelmente olharíamos para outras regiões mais ao Norte que nem consideramos porque não nos atendiam nesse primeiro momento. Parece contraditório, mas o foco no objetivo maior vai te dar mais flexibilidade. Quem muda de país, mais do que tudo, precisa se abrir para o máximo de possibilidades. O que me leva ao último ponto…

Perder o medo de repensar

Às vezes, a gente fica batendo cabeça porque quer alguma coisa e tem outra que vai atender até melhor que o esperado. Algo que nem se considera porque o foco em alguns detalhes muito específicos, mas menos importantes, chega a cegar.

A premissa básica dos planos é: eles podem dar tão errado quanto dar certo. Em situações críticas como uma mudança, sinto que é melhor ser ágil e se abrir para o que mais está disponível, do que perder tempo remoendo o que já é nítido que não vai rolar.

O que eu guardei por aqui, então, foi: se deu errado, segue em frente!

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna Érica MinchinSiga também o site da Érica.

 

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