Essa é uma pergunta que eu sempre fiz e essa semana, depois de ver um programa de televisão, me fez refletir mais ainda. “Equipe de Investigação” é um programa aqui da Espanha, que às vezes exagera no drama, mas aborda alguns assuntos bem interessantes e dessa vez falaram do turismo.

O turismo na Espanha está crescendo a cada dia mais. Os responsáveis são: o sol, comida boa e preços acessíveis para o resto dos europeus. Só que tanto turista traz impactos que são cada vez mais visíveis.

Os bastidores do turismo que a gente não vê…

Nas ilhas…

Ibiza é uma ilha famosa por seu turismo caro e luxuoso, mas não é muito grande. A quantidade de bares e hotéis funcionando no verão faz aumentar muito a oferta de emprego. Então, muita gente acaba indo para a ilha para trabalhar nessa temporada.

Devido ao espaço ser pequeno e a oferta de dinheiro grande, apartamentos pequenos podem chegar a ter um aluguel de 5.000 euros e uma simples cama de 800 euros, sem citar as mansões, é claro. O resultado, é que muitos dos trabalhadores de temporada não tem condições de pagar um lugar para morar. Muitos aceitam viver de forma desumana em uma casa compartilhada por mais de 100(!) pessoas, invadem edifícios abandonados sem segurança nenhuma e muitos deles vivem nas ruas.

Outra ilha famosa aqui, chama Mallorca. Ela também é pequena para aguentar a quantidade de turistas que vão passar a temporada ali. Antes mesmo da chegada do verão, eles já tem problema com a quantidade de água disponível e não são capazes de tratar todo o esgoto gerado. Esgoto esse, que é jogado no meio do mar, sem tratamento (!), através de um cano a algumas milhas dali. Alguns profissionais chegam a dizer que essas ilhas podem “morrer de êxito”.

Nas cidades…

As pessoas que vivem nos centros das cidades turísticas, estão sendo “obrigadas” a sair e mudar para as periferias da cidade. Os aluguéis dispararam com o aumento sem freio das habitações turísticas, como o Airbnb.

Cidades como Veneza, já tem uma previsão de que em pouco tempo, não existirão mais moradores antigos no centro. Além dos aluguéis caros, os comércios passaram a ser voltados para os turistas. Isso, tornou o preço impraticável pelos moradores locais. Veneza, pode não ter mais venezianos daqui a um tempo.

A cada dia que passa, chegam mais e mais cruzeiros em Barcelona. Os milhares de turistas que chegam com seu navio “all inclusive” e sem tempo, tentam conhecer a cidade em um dia. Pioram o trânsito e não gastam. Eles já tem um nome entre os moradores, são os Turistas “Low cost” e causam revolta dos comerciantes que dizem que eles só tumultuam e atrapalham.

Existe também o turismo de bebedeira. Voltado para jovens que não respeitam nem a cidade que vão e muito menos os vizinhos que querem descansar. E junto com todos esses problemas, muitas cidades não sabem nem o que fazer para garantir a segurança e lidar com tanto lixo gerado pelo turismo. Pensou no lixo gerado por cada garrafinha de água comprada por turistas em um dia?

Crescimento da turismofobia

Situações que fizeram que cada vez ficasse mais frequente a palavra “Turismofobia” nos noticiários daqui. Pixações com frases de “turistas não”, “voltem para os seus países” ou “vocês não são bem-vindos”, começam a fazer parte do dia a dia das cidades mais requisitadas.

O impacto também está nos “pequenos” detalhes…

Desde que eu comecei a aprender a velejar, fiquei impressionada pela quantidade de coisas que jogam no mar. Pensei que um veleiro seria mais ecológico, já que usa as velas quase sempre. Só que descobri que ninguém nesse meio usa produtos ecológicos e tudo isso vai parar no mar.

Aprendi, desde o primeiro título que tirei, que nos portos não se podia jogar nada na água. Porém, a verdade, é que ninguém fecha as saídas de água e banheiro dos barcos. Elas podem entupir e dar trabalho, por precaução(ou preguiça), melhor não fechar. Obviamente, as águas dos portos estão sempre nojentas.

Quando eu estava no Camboja, visitei as cidades flutuantes. Enquanto eu estava em um barquinho, remado por uma criança que não se atrevia a me olhar e nem falava inglês, me senti mal. Refletia para entender se eu estava ajudando ou atrapalhando.

Enquanto eu passava tão rente a porta da casa daquelas pessoas, mal conseguia tirar fotos. Me sentia como se estivesse invadindo seu espaço e olhando eles como quem olha um animal no zoológico. Será que eles se sentiam assim?

Também cheguei a andar em um elefante, fato, que eu escondo às vezes por causa do arrependimento. Ajudei a sustentar um turismo pelo qual eu já não concordo, por naquele momento achar que eu não podia perder aquela oportunidade.. Só que eu sei que esse tipo de turismo continua bem vivo. Um tipo de turismo que está causando a extinção e sofrimento de muitas espécies.

E ai?

Será que não é hora de parar para refletir até onde vai o impacto do aumento do turismo e dos voos cada vez mais baratos?

As cidades tem que aceitar tudo em nome do turismo? Eu mereço ser uma turista desprezível quando viajo a “Low cost“?

Parece que viajar, já não é só um período para aproveitar, descansar a mente e conhecer coisas novas. Eu, você e qualquer pessoa que decide viajar, passamos automaticamente a ter uma responsabilidade direta no impacto que causamos. Precisamos passar a ter consciência disso antes que as consequências sejam grandes.

Ninguém tem que parar de viajar, a pergunta aqui é: como tornar o turismo mais sustentável?

*Obs: usei informações do programa “Equipe de Investigações”, das notícias que vejo na tv e de experiências próprias.

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna Julia Queiroz. Siga também o blog da Julia.

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Sobre o Autor

Julia Queiroz

Formada em Desenho Industrial, Julia Queiroz viveu em São Paulo quase toda vida. Em 2013 fez intercambio na Austrália e acabou indo parar na Espanha, onde mora até hoje. Criou o projeto "Tempo de Migrar" e compartilha suas experiências também aqui no Já Fez as Malas.

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