Filhos em Portugal: ter ou não ter? Eis a questão

Portugal nunca esteve nos meus planos. Aliás, espera. Eu nunca tive planos, para ser bem honesta. Nunca cumpri uma lista de prioridades porque, ora vejam só, eu esquecia (e ainda esqueço) de fazer a lista. O que eu quis dizer é que morar neste país não foi algo que sequer cogitei algum dia. Não por achar que não era aquilo que eu procurava, mas porque simplesmente eu não o procurava. Já estive muito mais perto de ir para a Finlândia, no auge dos meus 19 loucos e inconsequentes anos. Nada pessoal, Finlândia e finlandeses. O contexto é que não era o mais acertado.

Entretanto, e como vocês muito bem sabem, o mundo gira e nós acabamos em lugares inusitados, impensáveis. Surpreendentemente, podem ser exatamente aquilo que procurávamos sem saber. Os nossos lugares. Foi em um desses giros que eu “topei” no José. Um gajo que fez as coisas girarem ainda mais. Pois é, eu parei aqui por amor e por amor fui ficando. Mas outro dia eu conto essa história. Hoje vou falar sobre o giro mais louco que alguma vez me aconteceu: filhos. Filhas, no caso.

Sobre decidir, gerar e criar

Cheguei ao Porto com duas malas abarrotadas da minha vida. Deixei muita coisa para trás, mas mal sabia o tanto que acumularia daqui para a frente. Na madrugada do primeiro dia de 2013, eu me olhei ao espelho e tive a certeza: estava grávida. Na verdade, já sabíamos. Como o José é minha alma gêmea no sentido de também não ser bom com planos, aconteceu. Sabíamos que ia acontecer. Desde aquele positivo, não houve dia igual ao outro em diferentes aspectos. Não sei ao certo quando caiu a ficha, mas eu ia ser mãe estando longe da minha mãe. Sem referências, sem poder pedir arrego, sem “mãe, me ajuda!”. Existe internet, Viber, Skype, Whatsapp, mas não é a mesma coisa.

À medida que a barriga crescia, tive de descobrir como lidar com a maternidade em Portugal, como entender o sistema. Ninguém pega na sua mão e diz: olha, faz isso, faz aquilo. Você tem que ir atrás da informação, dos direitos, como em qualquer outro lugar do mundo, aliás. Foi aqui que, penso eu, pela primeira vez tive que ser muito adulta. Marcar exames, ultrassonografias, lembrar das consultas, das vitaminas, comer melhor, preparar a casa, a vida para uma outra pessoa.

Mas sabem qual o mais duro? Eu tenho bisavó ainda viva, avós, muitos tios, primos a perder de vista e nenhum deles conheceria a minha cria. A Malu nasceu em agosto daquele ano e, ontem, a minha mais nova, Ava, fez 1 ano. Ainda não fomos ao Brasil, a minha vida hoje não cabe mais em duas malas. Apesar deste ser o meu lugar, de ser grata pelo que aprendi sozinha, pelo que tiver que maturar para maternar, é difícil ver as minhas filhas crescerem sem conviverem com aqueles que são as minhas raízes. Dói, alguns dias mais que os outros. Entretanto, entretanto…eles serão sempre parte de mim, delas, não importa onde estejamos.

Maternidade em Portugal em termos práticos (ou nem tanto)

Do ponto de vista assistencial, Portugal não é um país perfeito. Existem atrasos, listas longas de esperas por uma consulta, leis que não fazem muito sentido. Sim, sim, isso tudo existe, como no Brasil. Mas algumas práticas fazem toda a diferença, como o acompanhamento da gravidez ser bastante satisfatório no SNS (Sistema Nacional de Saúde). Vale ressaltar aqui que o fato de ser público não significa que é sempre gratuito, mas as grávidas têm isenção de todas as taxas até 40 dias depois do parto. As crianças também são atendidas gratuitamente. O Plano Nacional de Vacinação é bastante completo e os médicos de família cumprem um papel fundamental nos cuidados de saúde.

Durante a gestação, a Segurança Social disponibiliza à grávida uma prestação chamada Abono Pré-Natal. Esse valor, que depende dos rendimentos da família, pode ir até os 146,42 euros, e não é espetacular, mas não deixa de ser bem vindo para quem tem contas a fazer. Mesmo as mulheres estrangeiras têm direito a esse subsídio, assim como receber acompanhamento médico. Depois que o bebê nasce, ele é que passa a ter direito ao Abono de Família Para Crianças e Jovem e essa parcela também é calculada da mesma forma que o Abono Pré Natal. Em algumas cidades e aldeias, aquelas com as menores densidades populacionais e com uma população extremamente envelhecida, as juntas de freguesias e câmaras municipais encarregam-se de dar uma espécie de prêmio para cada bebê nascido. Em Vimioso, por exemplo, o auxílio era de 500 euros.

No último ano, a licença parentalidade exclusiva do pai aumentou para 25 dias úteis, o que é ainda pouquíssimo, mas essa é uma luta da maioria dos países. A licença exclusiva da mãe só vai até os 4 meses, paga a 100%, pode ser prolongada, mas a mulher recebe bem menos e muitas optam por voltar a trabalhar.

Depois, podemos falar sobre educação, segurança, empregos, etc. Existe tanto no que diz respeito a ter filhos que nunca vai caber em um texto só. O debate é longo, incansável e acho que nunca chegaríamos a uma conclusão absoluta se Portugal é um bom país para se ter filhos ou não. O certo é que eu tive, que muitas pessoas têm e continuarão a ter. Aqui ou no Brasil, na Finlândia ou no Nepal, nos EUA ou nas Ilhas Cook, penso que a pergunta certa seria: eu quero ter filhos? Estou preparada(o) para isso? Tudo que vier depois é uma consequência dessa decisão.

Eu posso dizer a vocês que me sinto segura com o rumo que tomei, que me sossega o coração ir buscar a minha filha à creche e ter quase 95,34% de certeza que vou voltar inteira. Posso dizer ainda que discordo de algumas abordagens e procedimentos médicos do sistema obstétrico e que tenho ressalvas com o generalismo do sistema educativo. Mas tudo isso são questões que levam em conta a minha visão e preferências no que diz respeito a criar um filho. O que pode ser um problema para mim, pode ser exatamente o que outra pessoa procura, ou o contrário.

O certo é que não há fórmula exata para todos nisso de multiplicar. Nisso de nada, aliás, porque somos tão plurais que isso é impossível. A única certeza que vocês podem ter é que a saudade daquilo que deixamos aumenta tanto quanto a felicidade por cada vida que geramos.

Este conteúdo é de total responsabilidade da autora da coluna Uma casa portuguesa, tem certeza?

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