Há dois meses coloquei em uma mala de rodinhas minha vida e subi em um avião sem retorno certo: foi uma das maiores decisões que tomei em vinte e seis anos. Eu e meu namorado planejamos durante um ano inteiro a nossa vinda para a Europa, eu já havia morado quatro meses em Londres e ele também foi para lá ter sua primeira experiência fora do Brasil.

O destino foi escolhido por uma certa comodidade, sabe aquele provérbio “matar dois coelhos com uma só cajadada”? Então… Viemos para a Itália para fazer o processo de cidadania italiana do Gui e também para começar uma nova vida nesse lado do oceano.

Achei que quando descesse do avião, já estaria “parlando italiano”, mas não foi bem assim. Apesar de todo o planejamento que fizemos (financeiro e psicológico), esquecemos de dedicar um tempo ao principal: o idioma. Achamos que com nosso inglês e nosso italiano patrocinado pela novela “Terra Nostra” já conseguiríamos “nos virar”, mas a verdade é que foi um pouco chocante: logo no primeiro trem que pegamos para a nossa cidade atual, uma senhora discutiu comigo pois ela achou que eu estava sentada no lugar errado, eu não entendi absolutamente nada e por consequência, fiquei só murmurando: “er… scusa…” A sorte é que um senhorzinho que estava sentado ao lado se solidarizou com a minha causa e me defendeu. Enfim, um pouco traumático.

A questão é: muita gente fala que se você se vira bem no inglês qualquer pessoa vai te entender e por um lado é verdade: hoje em dia quase todo mundo fala o idioma e isso é válido para cidades grandes, como Milão, Roma, Veneza… Mas e se você morar em uma cidadezinha pequena no norte da Itália?

Além de estarmos em uma cidade com pouco mais de 16mil habitantes, as pessoas costumam usar o dialeto vêneto, uma variação do idioma, descendente do latim vulgar, por exemplo: enquanto que “chave” em italiano é “chiave” /kiave/, em vêneto fica “ciave” /tchave/. Não é algo preocupante, mas se você não fala italiano, fica bem difícil. Imagina que você é de São Paulo e decide morar na Bahia: apesar do idioma ser o bom e velho português, a pronúncia é diferente, assim como as gírias e até algumas palavras – é a mesma coisa com o dialeto.

Acredito que a dica mais preciosa que posso dar a você que quer se mudar ou mesmo passar um tempo mais longo em outro país é: aprenda a falar o idioma local, mesmo que o básico. As pessoas se tornam muito mais solícitas quando são abordadas com a língua que conhecem. Mas, se você vier nas mesmas condições que a gente veio, sabendo falar apenas “pasta” e “capiche”, saiba que não é o fim do mundo! Aqui na Itália os “comunes” (ou seja, as prefeituras) costumam oferecer cursos gratuitos de italiano para estrangeiros, normalmente se paga uma pequena taxa de início, e as aulas só acontecem durante o período letivo que começa na metade de setembro e termina no começo de junho.

Como chegamos aqui em maio, não conseguimos vaga no curso oferecido pelo comune então resolvemos comprar um bom livro de gramática italiana e assistir vídeos-aula pela internet. Outra coisa que fazemos é assistir séries, filmes e documentários com áudio e legenda em italiano, para afinar os ouvidos e treinar a leitura. E não é que estamos conseguindo? O segredo é “botar a cara no sol”, puxar assunto com a caixa do supermercado, conversar com o técnico do gás, gastar o idioma, sem vergonha de errar… Qualquer coisa, manda um “scusa, io non parlo bene italiano” e bola pra frente!

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna Melissa Costa. Acompanhe também o blog Fifty-Fifty.

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Sobre o Autor

Melissa Costa

Melissa se mudou para a Itália e agora tem que "parlare italiano". Acredita que nesse processo 50% é planejamento e 50% diversão. Compartilha suas experiências no blog "Fifty-Fifty" e aqui no Já Fez as Malas.

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