Uma breve história do meu “eu” londrino

Ah, a cultura! Aquela bagagem que está ali com você desde o nascimento, que te precede, te faz observar tudo com um olhar bem particular e que te faz reagir de determinada forma. A cultura que é bem específica de um povo, de um grupo, de sua família, de seus amigos, e que te torna quem você é. Aí chega uma idade e você pensa: “Eu sei quem eu sou!”. Mas não, você não sabe.

Com a mudança para Londres veio uma crise de identidade. Ela foi se instalando à medida em que eu me deparava com novas formas de pensar e ser, com um novo cotidiano, novas comidas, novas maneiras de abordar outras pessoas, sem o amparo confortável da família e dos amigos que dividiram comigo momentos da minha história.

A mudança da minha pessoa começou na fala. Quem você é depende também muito do seu vocabulário. Meu inglês trouxe palavras, termos e frases que eu aprendi em aulas de inglês na escola, nas músicas que traduzi, nas séries que assisti. Mas esse inglês não expressava, e ainda não expressa, a dimensão real e precisa dos meus pensamentos ou sentimentos. Quando eu falo em inglês, a sensação é de que não sou eu quem está falando, mas sim uma outra Lívia.

A segunda mudança foi no paladar. Quem foi criada à base da carne bovina, arroz, feijão e cuscuz de milho, olhou com estranheza para todas as opções que Londres oferece. Aqui, e talvez só aqui, eu pude ir além de me sentar num restaurante temático e apreciar outra culinária, para experimentar comida feita por alguém que aprendeu uma receita de família. Por exemplo, um almoço tailandês confeccionado por um tailandesa, frango agridoce feito por um chinês de Hong Kong, lanche e bolinhos feitos pela mãe italiana de uma amiga, petiscos indianos trazidos pelo colega de trabalho.

Também passei a levar uma vida mais sustentável. Não tenho carro, aderi ao lixo seletivo, pego ônibus e metrô todo dia e não tenho problema de andar 15 minutos ou até mais para lugar nenhum.

A minha noção de tempo também mudou. Se no Brasil horários marcados eram mais flexíveis, aqui assumi o ritmo de Londres. Virei aquela pessoa que planeja o horário de saída para chegar no horário certo nos lugares, que adiciona na agenda o jantar com os amigos, a pessoa que quase corre em vez de andar, que fica impaciente em esperar mais de 4 minutos por transporte público. Cá entre nós, eu preferia a relação com o tempo e horários que eu tinha no Brasil, bem menos ansiosa do que aqui.

Outra mudança, essa mais libertadora, foi a de me sentir bem menos pressionada com o que outras pessoas vão pensar. Aqui não tem aquele parente que vai lhe lançar um olhar de julgamento porque você não passou num concurso.

No entanto, a mais importante mudança de todas foi que eu passei a ser mais… eu. Parece irônico? Sim, é. Mas não é quando você se depara com a diferença que passa a saber quem você é? E não é quando você encontra pessoas diferentes que você reconhece melhor a sua própria história?

Aqui eu aceitei que sou mesmo muito magra e pequena, que não tem problema e que não é feio, que não preciso adotar o padrão teresinense de cabelos loiros tingidos com luzes, que posso me vestir e combinar cores que antes não ousava e ninguém vai olhar torto. Posso dizer que não sigo religião e serei respeitada, que não quero ter filhos e pessoas vão aceitar minha posição mais facilmente, e que, em um lugar onde todo mundo parece ser diferente de todo mundo, há sim tradução para o meu jeito de ser.

 

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna Lívia Moura.

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