A gente tem aquele sotaque que é difícil que desapareça. Vamos passar por aquele dia que todo mundo fala de coisas da infância do qual você nunca ouviu falar, soltaremos aquela frase achando que estamos arrasando enquanto todo mundo faz uma cara de que não entendeu nada… É! Somos estrangeiros! E vamos continuar sendo, mesmo para os que disfarçam que não.

Essa condição nos coloca em um setor diferente da maioria da população local (dependendo de onde você mora). E sempre que pertencemos à minoria, estamos à mercê do famoso “julgamento”, já que não pertencemos ao “normal”.

Junto com o julgamento, vem o também famoso “pré-julgamento” ou mais chamado de: preconceito. Ciente de que eu, branca e até confundida com uma espanhola se não abro a boca, não sou o alvo principal da maioria dos preconceitos, mesmo assim, gostaria de falar um pouco deles.

Como eu comecei a sentir o preconceito…

Quando eu estive na Austrália já comecei a entender qual era o preconceito que ia ser mais presente na minha vida: o do estereótipo de “mulher brasileira”. Percebi isso sempre que saia por aí e alguém (homem) perguntar de onde eu era. Logo após a minha resposta, eu via a mudança da fisionomia dele e muitas vezes seguida da repetição do que eu acabava de falar, em uma frase estranha como: “huuum.. brazilian…”. Nesse ponto, eu tentava ignorar, o que possivelmente passava na cabeça dele na hora das reticências e, obviamente, ele seria mais uma pessoa que eu jamais continuaria a conversa.

Nada contra as minhas conterrâneas que saem pelo mundo para ganhar a vida vendendo os seus serviços sexuais, mas a quantidade delas e quase todas usando o fato de ser brasileira como “diferencial” no mercado, fez com que a nossa vida ficasse um pouco mais complicada. Essa minha teoria é confirmada sempre que eu vejo o setor de anúncios do jornal aqui da Espanha (dá para acreditar que isso ainda faz parte do jornal?).

Só que, obviamente, elas não foram as primeiras a construir essa fama. O nosso querido carnaval e a exportação da imagem das brasileiras seminuas foram e continuam sendo a origem de todo esse mal. Fato que faz com que nenhum espanhol acredite que no Brasil o topless é proibido (como assim? As mulheres não estão por aí sambando, com os peitos de fora o ano todo?).

Eu não sou a única que sofre com esse preconceito, meu parceiro também tem que ouvir piadinhas sem graça por aí e comentários que não vêm ao caso. Insinuações difíceis de engolir e perguntas típicas, como: “Ela não tem uma amiga para apresentar?”. Achando que no dia seguinte, eu apresentarei uma brasileira moldada pelo seu preconceito.

O que fazer então?

Esse é só um tipo de preconceito e eu sei que existem outros milhões mais ou menos graves que levam, na melhor das hipóteses, à comentários inconvenientes e, na pior, à violência. Alguns podem ser mais difíceis de levar que outros e por isso, aviso que meus conselhos aqui são bem genéricos.

O que fazer com todo esse preconceito? Primeiro: Ignorar….

Eu sei que parece difícil, mas eu provei para mim mesma que ignorar faz com que eles quase desapareçam. É uma forma de virar às costas para a realidade, mas é de uma realidade que eu não quero ver.

Também observei que ao não esperar que as pessoas tenham preconceito contra mim, isso era o que geralmente acontecia. Quando eu falo com alguém, eu não estou esperando nenhum tipo de preconceito e, por isso, não estou agindo na defensiva.

Outro dia encontrei uma senhora na rua que começou a conversar comigo. Ela era do Peru, mas podia se passar fisicamente por uma espanhola. Então, ela me contou sobre casos de preconceito e que, inclusive, já chegou a ser atacada verbalmente no ônibus.

O que me fez pensar: qual era a diferença entre ela e eu? Já que eu vivo na mesma cidade e nunca sofri nada grave, além de uma ou outra piada. Eu penso que talvez seja isso: o fato de que eu vivo como se isso nunca fosse acontecer comigo. E por incrível que pareça, é o que acontece.

Dá para usar a empatia? Sim…

Das poucas vezes que eu tenho que passar por algum caso de preconceito meu outro “truque” é me colocar no lugar da pessoa. Que leva uma pessoa a achar que 100 milhões de mulheres que vivem no Brasil são iguais? O que leva uma pessoa a achar que o Brasil é uma floresta e que praticamente vivemos em casas na árvore? (É sério isso…rs)

São pessoas que não têm noção nenhuma do mundo que vivem. Então, quando isso acontece, eu agradeço pela quantidade de coisas que eu conheço e penso, como deve ser viver em uma bolha que só te permita ter esses pensamentos. Passo a ver aquela pessoa de outra forma, sem raiva. Entendendo de onde vem toda essa “ignorância” sobre os demais.

O melhor jeito de lidar com o preconceito é seguir a vida sendo quem somos. Mostrando para quem queira ver que somos todos iguais, seres únicos e especiais. E quem não quiser ver? Azar deles… não sabem que grande parte da grandiosidade do mundo está nas pessoas.
O pré-julgamento sempre pode existir, seja aqui no exterior ou no nosso próprio país. O que muda é o que a gente faz com ele. Você tem o poder de decidir se eles interferem ou não na sua vida.

Este conteúdo é de total responsabilidade do autor da coluna Julia Queiroz. Siga também o blog da Julia.

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Sobre o Autor

Julia Queiroz

Formada em Desenho Industrial, Julia Queiroz viveu em São Paulo quase toda vida. Em 2013 fez intercambio na Austrália e acabou indo parar na Espanha, onde mora até hoje. Criou o projeto "Tempo de Migrar" e compartilha suas experiências também aqui no Já Fez as Malas.

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