“Ai que eu adoro a canalha!”, disse-me um dia a minha sogra toda contente ao telefone. Referia-se às crianças. Fiquei um tempo muda, pensando se tinha ouvido bem. O máximo de resposta que consegui articular a essa afirmação efusiva foi “pois é…”. Canalha? Como assim canalha? Será que eu tinha ouvido bem? Tinha, pois. No Porto, várias crianças reunidas é a tal canalha.

Miúdos, miudagem, putos e catraios são também canalha. Não tem acordo ortográfico que dê jeito em tanta divergência vocabular! Mas pronto, é ortográfico apenas, as canalhices não têm nada a ver com isso. Trocadilhos infames à parte, essa é das expressões que eu tenho certeza que nunca vou conseguir adotar por motivos óbvios. E também já contei a vocês que é perfeitamente normal, aceitável e até bastante carinhoso chamar um bebê de “piolho”? “Olha o meu piolhito que giro que está!”. P-I-O-L-H-O! E vejam só, eu nem devia ficar chocada com esse tipo de coisa, já que eu venho do Nordeste do Brasil, do Piauí, mais precisamente, onde a quantidade de expressões esquisitas é bastante considerável. Arrocha o buriti, cutruvia, queima raparigal, catrevagem, marmota, fí de gata, só o pau da placa, borimbora, brógui…Qual é a minha moral para falar dos piolhos e canalhas, não é mesmo?

Nem fluente, nem influente

Quem já leu meus outros textos, deve ter guardado a informação. Para quem está me lendo pela primeira vez, digo que já estou nessa terrinha há quase 5 anos. Diariamente, convivo mais com portugueses do que com brasileiros. Parece óbvio, mas não. Muitos dos conterrâneos que vivem aqui constróem mais laços com outros brasileiros, uma forma de ajudar na integração (que pode ser bastante barra pesada às vezes). No meu caso, e muito por causa das minhas filhas, dos movimentos em que fui me envolvendo, do lugar em que moro, a realidade foi outra. Toda essa ladainha para dizer que eu já me achava muito fluente no “purtuguês de Purtugal”, muito trabalhada no jeito de falar do povo portuense…só que não.

Ainda há 2 semanas eu descobri que venho sendo uma mal educada basicamente desde que cheguei aqui. E por quê? Porque eu usava gaja para me referir a toda e qualquer pessoa do sexo feminino. O mesmo acontecia com gajo também, aliás. E não pode? Poder pode, mas não é lá muito bem visto. Gaja é sim uma moça, uma rapariga, mas tem uma conotação mais pejorativa. Ou eu uso para me referir a uma amiga, em tom de palhaçada, ou para falar de uma fulaninha de tal de forma pouco simpática. Pois é, eu andei aqui esse tempo todo me referindo à gaja da farmácia, à gaja da creche, à gaja do primeiro andar na maior naturalidade e não teve um cristãozinho de meu-deus para me corrigir. Nem o meu próprio marido, que já vai a tempo de saber que eu sou uma gaja respeitadora. Ora pois!

Por falar em marido, companheiro, cônjuge, gajo (serve também para falar do boy), ele também já foi vítima dessa minha “força de vontade em parecer muito local”. Eu tinha chegado há poucos meses, então estava tipo criança: esponjinha, absorvendo todas as informações novas. Em uma das nossas brincadeiras de casal, viro-me para ele e chamo-o de “boi”. “Para lá, seu boi!”. Ui…mas vocês não imaginam a cara do moço, o ar de ofendido! “Chamaste-me boi????” “Chamei, ué! O que é que tem?” “Sabes o que significa boi??” “Sei, claro! É tipo chato!”. Já tinha ouvido várias pessoas a fazerem o mesmo, referindo-se a amigos, não devia ser muito mau. Um vizinho tinha cumprimentado o outro com um valente “Ó meu ganda boi! Tás bom?”. Mas era muito mau sim. Eu basicamente tinha o chamado de (tirem as crianças da sala) filho da puta.

Então, qual é a lição desse post, pessoal? Canalha pode. Gajo(a) e boi, nem sempre.

Este conteúdo é de total responsabilidade da autora da coluna Uma casa portuguesa, tem certeza?

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Sobre o Autor

Romana Naruna

Jornalista, piauiense de raiz, carioca de passagem, portuense de coração. Mudou-se para Portugal por amor e descobriu aquilo que chamam de segunda casa.

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