Chegada em Marrakech e o “jeitinho marroquino”

Na Europa, tempo feio, chuvoso, frio. Em alguns lugares há até neve. Na chegada a Marrakech o sol aparece, mesmo que entre nuvens.

Nas mãos o formulário de imigração a ser preenchido e entregue aos policiais no aeroporto. No campo “profissão” há sempre uma dúvida do que colocar: “sou tantas coisas, quero ser tantas coisas. Jornalista, profissional de marketing, fotógrafa, videomaker. Por que tenho que me definir em uma só?” e outros devaneios que cabem antes da aterrissagem.

Na abertura da porta do avião sente-se o bafo da diferença de temperatura e o casaco pesado se faz desnecessário.

Faz cerca de 15ºC. Não chega nem perto do calor do verão de um país na África, mas tratando-se do início da estação da mais fria do ano, é até que muito agradável.

Formulário de imigração no Marrocos. Foto: Nataly Lima

Eu, eu mesma e o “jeitinho marroquino”, em Marrakech

Do Aeroporto de Marrakech-Menara até o Hotel Les Trois Palmiers, ponto de encontro deste tour, são cerca de 6 km. Nada que quinze minutos de carro não resolvam. No entanto, a dura tarefa de estar sozinha e ter que enfrentar um grupo de taxistas locais que abordam os visitantes recém-chegados como se fosse uma feira ao ar livre e todos gritando ter o melhor preço.

Como é que se escolhe em qual táxi entrar? “Valha-me Deus”, como dizem em Portugal!

 Aeroporto de Marrakech-Menara, no Marrocos. Foto: Nataly Lima

Ali ao lado há uma tabela de preços que indica quando será cobrado 100 dirrãs marroquinos (DH) ou 150 DH, variando conforme a distância. Marrocos é daqueles lugares em que é preciso confirmar o preço de tudo antes de fechar negócio, até mesmo de uma rápida corrida de táxi.

Abro o Google Maps e logo fico sem conexão à internet. “Estou em roaming“!

Então, com o pdf do roteiro aberto no celular, aponto o endereço do hotel ao taxista, que diz: “são 100 dirrãs”, equivalente a cerca de 10 euros (no entanto, tenho o dinheiro local mesmo porque com euros aqui não se vai longe). Ao colocar as malas dentro do carro vem outro taxista, possivelmente o chefe do primeiro que não sabia falar muito bem inglês.

“Vai ser 150 DH para este destino. É mais longe”, avisa. Aceno com a cabeça que sim, afinal, nem sei onde estou ou como chegar lá mesmo. Aqui não tem Uber.

Com o valor acordado, seguimos viagem.

Desde o momento em que se sobrevoa Marrakech, tudo se torna rosa, cor de terra. Ao chegar em solo essa cor só se torna ainda mais viva e predominante com o reflexo do sol. Parece verão, mas é fim de outono.

No curto caminho percorrido dentro do táxi já dá para sentir um pouco a atmosfera do país.

Táxis em Marrakech. Foto: Nataly Lima

São carros para todos os lados. Mais que isso, motocicletas, bicicletas, pedestres, dromedários – sim, no Marrocos há dromedários e não camelos como diz o senso comum, pois possuem uma corcunda só. Mas podemos chamar de camelos se assim preferir.

De todo modo, aqui o que se quer chamar atenção é que eles também estão na rua, entre as palmeiras, próximo aos hotéis cinco estrelas para deixar bem claro que aqui se trata de um destino turístico e que é possível dar uma voltinha neles se assim quiser. Basta pagar!

Mais alguns minutos e o táxi para. O motorista indica que chegamos ao destino. Uma nota de 200 DH é entregue e ao pegar nela o motorista sai do carro para abrir a porta.

“Desculpe. Falta o troco de 50 DH. O valor combinado foi 150 DH”, alerto o taxista que pode ter se distraído.

“Não tenho troco”, retruca ele com o pouco inglês, como que esvaziando os bolsos para mostrar que ali só tem umas moedinhas sujas. Todas juntas dão cerca de 0,20€. Ele me entrega as moedas e eu faço cara de “senhor? senhor?”.

Pede o troco correto daqui, diz que não tem dali. Uma mala sai do carro e metade de mim vai atrás. Deixo a outra perna ainda dentro. “Quero meu troco”!

O motorista vence, leva dinheiro a mais e minhas malas e eu somos deixadas à porta do hotel. Fui recebida logo de cara com o jeitinho marroquino. Paciência! Só espero que não seja sempre assim.

Chegando no hotel já por volta das 16h30, o próximo passo a fazer é o check-in e deixar as malas no quarto. Até o encontro com o guia e o restante do grupo não há muito tempo livre. Também não sei se é uma boa opção explorar a cidade sozinha. Fico por ali mesmo.

Entro no quarto, lembro que são duplos e que dividirei sempre com alguém do mesmo sexo. “Tomare que não seja com alguém esquisito pelo menos”, falei comigo mesma.

Quarto duplo do primeiro hotel em Marrakech. Foto: Nataly Lima

Já são 18h. Todos se reúnem numa sala. O guia se apresenta e entrega algumas informações como palavras úteis ditas em árabe e seu contato telefônico, em caso de necessidade. De toda aquela informação nova só fica uma: “Yala!”, termo que significa “vamos” e que viria a ser utilizado muitas outras vezes ao longo da viagem.

O grupo mal se conhece e logo já está bem integrado. Surge um convite tímido do guia para jantar no hotel ao lado. Um grupo grande aceita.

Na saída da reunião e antes de irmos ao restaurante avisto minha colega de quarto, que chegou um pouco depois dos demais. “Nossa, mas que mala grande você trouxe”, desato o primeiro comentário sincero em tom risonho à espera que ela também seja uma pessoa descontraída. “Pois é, eu não sabia muito bem o que trazer”, ela retruca também risonha com o sotaque britânico.

Viramos amigas para sempre daquele momento em diante. “Vem, eu te mostro o quarto. É por aqui”, seguimos juntas.

Conhecendo o grupo da Intrepid. Foto: Nataly Lima

Alguns seguem para o jantar. Talvez como que um alerta do Universo, apesar de haver muitas opções típicas da gastronomia marroquina, a minha escolha e de mais alguns é um prato internacional qualquer: uma pasta, um hambúrguer; apenas algo para matar a fome.

Para alguns seria a última refeição sem efeitos colaterais e já sabem o porquê.

Aqui nesta mesa temos algumas pessoas a se tornar os melhores amigos desde cinco minutos atrás. Todos ansiosos por explorar as riquezas do Marrocos.

Nesta noite não há programação além disto. A única instrução é preparar uma mala menor, para um dia, já que a próxima noite será passada em um guite, típico alojamento marroquino.

A saída é depois do café da manhã.

“Yala”!

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