Portugal pode não ser o paraíso que você imagina

Portugal daqui, Portugal de lá. Nos últimos anos o país tem se tornado um hit entre os brasileiros e não só. Todos querem visitar, tirar a cidadania portuguesa e, porque não, morar em Portugal.

Eu, particularmente, me sinto como uma irmã mais nova ou mais velha de muita gente devido à repercussão de muitos vídeos do Já Fez as Malas no Youtube e até mesmo posts aqui no site. Por isso, sinto-me na obrigação de dizer que também há um outro lado da moeda, talvez não tão bom – como em tudo nessa vida. Fiz um raio X do local e abaixo compartilho a minha opinião e experiência, que pode ser parecida ou totalmente diferente da sua.

Não é para desmotivar, mas apenas para informar.

1- Não há boas oportunidades para todas as áreas

Nos últimos anos, cidades como Lisboa e Porto têm se transformado em um centro de inovação e tecnologia. Já há alguns polos com startups e tudo, no entanto, isso é ótimo para pessoas de áreas como tecnologia, TI e engenharia.

A área da saúde é complicada, principalmente para os recém-formados. Por experiência própria, em marketing digital e publicidade, o país ainda tem que andar muitas léguas para se equiparar ao Brasil. Não há tantos cursos livres interessantes ou com bom custo-benefício. Também não há tanta concorrência, logo, tem de se escolher entre meia dúzia de empresas (onde quase todos se conhecem, o que nem sempre é bom).

Em muitas outras áreas o mercado não está nem bem, nem mal, mas o brasileiro que não tem nacionalidade portuguesa vai sempre levar a desvantagem de ser muito complicado, burocrático e demorado para uma empresa portuguesa contratá-lo em vez de um cidadão português (e essa história de ir como turista e conseguir casa, emprego e roupa lavada em três meses é mito! Não caiam nessa e nem me peçam conselho sobre ir/ficar de forma ilegal. O caminho mais fácil ainda é ir para estudar com visto e tudo certinho).

2- Ainda há muito preconceito

O que notei nos anos que vivi aqui é que os comentários mais preconceituosos vêm dos mais velhos. Talvez por terem vivenciado outras épocas e outras realidades, ainda ficam um pouco presos no tempo e em um conservadorismo muito forte. Mas como preconceito e estereótipos também podem ser hereditários, há muitos jovens que também têm essa mentalidade.

  • Brasileiras = mulheres fáceis / oferecidas
  • Brasileiros = sem instrução, preguiçosos por conta do calor (oi?) / não sabem falar inglês
  • Brasil = resume-se à violência, mulheres, praia e a “capital” (que muitos pensam ser o Rio de Janeiro – oi?)

Esse preconceito passa também pela cor da pele. Já tive inúmeros episódios e situações surreais sobre ser negra, não ser tão negra assim (“meio negra”, pra quem já ouviu essa). Ser considerada bonita por ter traços mais “finos, mais europeus; não como os da África”. Opinião todo mundo tem a sua e deve ser respeitada, por mais estranha que seja. Mas a minha paciência em ter que ouvir cada uma dessas coisas sem ter dado abertura para esse tipo de conversa também tem limite.

Por isso, antes de fazer as malas, se revista de muito sangue frio e autoestima para aguentar muito desaforo. Infelizmente não é um problema local, mas de qualquer lugar que você for: será sempre o estrangeiro / o brasileiro / a mulher negra, etc. Não é motivo para desistir de morar onde quiser, mas sim, é uma situação que terá que descobrir a melhor forma de lidar.

3- Sistema de vistos é moroso que até cansa

Oito meses. Foi isso que levei para conseguir renovar meu visto da última vez. A espera por uma marcação no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) virou algo que se resolve em meses e chega a fazer aniversário. Isso para quem está e sempre esteve legal, agora pense no caso daqueles que cogitam imigrar ilegalmente?

Isso vale para quem consegue trabalho já estando em Portugal legalmente, recebe uma promessa de contrato e só falta a autorização de trabalho. Infelizmente, nesse tempo às vezes o emprego também vai ficar faltando. Nesse meio tempo eles não aconselham sair de Portugal nem mesmo para voltar para o Brasil. Não preciso nem comentar o quão absurda é a situação.

Vale uma observação de que o brasileiro tem sido tratado diferente em outros aspectos também. A revista nos passageiros vindos de cidades como São Paulo está cada vez mais pesada nos aeroportos. Revistam absolutamente todos os bolsos e fundos da sua mala.

Isso devido também a muitos brasileiros que tentam ir e ficar ilegalmente e deixam as autoridades em estado de alerta. Ou seja, mesmo quem está com tudo certo paga o pato.

4- Está cada vez mais caro morar

Pense: quanto mais pessoas conhecem, visitam, compram casas; mais caro fica. É essa a realidade de muitas cidades em Portugal. O aluguel não para de subir (e falo por experiência de ter me mudado exatas seis vezes aqui). Logo, aquilo que era bastante atrativo começa a ficar um pouco ameaçado: o custo de vida baixo. Ainda assim, é dos países mais baratos para se morar na Europa. Apenas não tão mais barato quanto antigamente.

5- Não é um país para ganhar dinheiro

O salário mínimo atual é de 530€ e pode-se dizer que um salário médio bom vai de 800 a 1.000€ líquidos. Neste tempo, conheci poucas pessoas que passem disso (a menos que sejam de áreas nas quais normalmente já se ganha bem em qualquer país, como engenharia, medicina, TI, etc). Logo, às vezes é preciso se privar de conviver, comer fora, viajar e assim juntar dinheiro, estudar ou investir em algo.

Vive-se confortavelmente, mas é difícil ter muito dinheiro sobrando se tiver que arcar com todas as despesas normais: casa, contas, estudos, alimentação, etc.

6- Estudar pode ser frustrante

Antes de mais, português do Brasil e de Portugal são duas línguas diferentes. As semelhanças são muitas, mas as diferenças também. Apesar de gerar situações até engraçadas, quando se trata de estudar em Portugal, principalmente na área de humanas, esse pode ser um problema sério. As instituições mais tradicionais, essencialmente as públicas, possuem um corpo docente mais experiente e consequentemente mais velho. Aquilo que foi dito acima sobre as pessoas com mais idade terem uma visão muito fechada e até preconceituosa não escapa das faculdades.

Vivenciei e ouvi relatos quase que idênticos de outros brasileiros que tiveram problemas com notas medíocres e não por falta de estudo ou por terem respondido mal às questões dos exames. Eu mesma fui questionar o professor o porquê de algumas notas minhas, depois de ter feito duas vezes a mesma prova apenas para melhorar a nota, e o próprio retirou um exame escrito por um português e pediu para eu comparar. Ambos possuíam o mesmo conteúdo. A diferença eram as palavras, obviamente, e a nota. Então perguntei porque eu havia tirado uma nota tão ruim se as respostas pareciam estar corretas: “o problema são vocês, brasileiros. É que vocês não sabem escrever”.

Foi um dos momentos mais frustrantes da minha vida acadêmica. Saber que não importa quantas horas estudei, que acertei o conteúdo e que escrevi de acordo com as normas do novo acordo ortográfico e ter isso em retribuição. Aí me lembrei de ouvir de muitos professores no início do curso: “não interessa. Na minha aula não sigo o novo acordo ortográfico”. E também algo que me incomodou desde o princípio: “O 20 é para Einstein, o 19 é meu, o 18 para um aluno que surge de quatro em quatro anos. Contentem-se com no máximo um 16” (a nota em Portugal vai de 0 a 20).

Ou seja, infelizmente há professores cheios de ego, do “ninguém é melhor do que eu” e de “dou nota boa a quem me apetecer”.

Fica a ressalva que, graças a Deus, não são todos assim, mas por vezes é preciso se preparar para topar com pessoas que pensam desta forma pelo caminho. A coordenação do curso na época disse que não podia interferir na forma que os professores avaliam seus alunos. Fim de assunto.

Moral da história

Esses pontos que quis ressaltar não foram para desabafar, mas sim para gerar mais consciência e dar uma dose mais realista a quem quer escolher Portugal para chamar de casa. Lembrando que nem Brasil, nem Portugal e nem país nenhum são perfeitos (nem nós). É uma questão de pesar os prós e contras na balança e decidir o que importa mais para você.

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[su_service title=”Atenção” icon=”https://www.jafezasmalas.com/wp-content/uploads/2015/06/jfam-simbolo.png” size=”30"]Este conteúdo é de exclusividade do Já Fez as Malas e não pode ser reproduzido parcial ou integralmente sem autorização prévia. Caso queira referenciar o conteúdo abordado neste artigo, pode-se utilizar um link para a matéria.[/[/su_service]h6>

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